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29.12.09

Aqui no Amazonas nós pegamos onça na mão!!!!

A última presepada do ano!!!



Em 1992 entrei de penetra no Hotel Tambaú de Jampa (rede Tropical) para poder ver a Legião Urbana de perto. Consegui entrar como se estivesse procurando um hóspede (não antes de ser barrado). Sentamos à mesa com Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá, Serginho Serra, Tavinho Fialho e toda a banda, menos o Renato Russo que, deprê, ficou quase o tempo todo no quarto e apareceu rapidamente na sacada.
Agora no final de 2009 entrei de penetra no Tropical Hotel (Manaus) e aproveitei a piscina que tem como paisagem o Rio Negro. Desta vez foi mais fácil, entrei pelo acesso do rio, procurei a piscina, dei um mergulho e me despedi daquele paraíso!

28.12.09

que

Que a solidão que se aproxima não seja motivo para a fraqueza
Que o sentimento de fracasso não seja motivo para desejar o indesejável
Que a falta dos amigos seja um motivo para apurar o sentimento de solidariedade
Que a liberdade que a solidão impõe não seja um motivo para perder a razão
Que o ano-novo seja apenas um referencial imposto pela sociedade moderna
pelo menos nesta virada
Que eu consiga sobreviver ao volume incontrolável de sentimentos aflorados
Que a paz que eu procuro para todos seja sempre um horizonte tangível
Que eu ainda consiga revelar meus desejos para o futuro
Que a tormenta do futuro seja válvula de escape do presente
Que eu tenha um porto seguro, que os meus vivam muitos anos
Que eu possa superar os medos, os obstáculos, as lutas inglórias
Que eu não precise ser carregado para vencer esses dias
que serão longos
Que o tempo não pare, que a vida siga, que os sonhos continuem vivos
Que eu não tente descobrir meus limites
Que minhas lágrimas não sequem
Que eu possa ter outra chance,
ou ao menos possa encontrar os que já foram
Que meu grito acorde os que dormem
Que minha centralidade não se perca neste caminho
Que minha dor possa dormir sono profundo
Que minha alegria possa aplacar meus olhos tristes

fiz vários amigos no barco Belém-Manaus - este é um indiano que mora na Austrália



Encontro inusitado em Manaus/AM

Em algum lugar da Venezuela - em breve relatos




27.12.09

a última do ano ou prá não dizer que não falei das flores

Esta manhã descobri que não me mereço mais
Que os discursos plantandos ao longo do tempo
Foram varridos céu afora
Todos os meus desejos foram ceifados
Degolados por atitudes insanas
Pelo meu próprio egoísmo
Minhas fraquezas
Meus limites incontestáveis
O chão ensopado de lágrimas
Derramadas ao teu lado
E nunca percebidas
Esse ritual de passagem foi tão necessário
E tão esperado quanto a insensibilidade
De teus olhos cegos
Desprendo-me das minhas entranhas
Reviro-me ao avesso
Da lima costuro sonhos
No céu de um futuro incerto

29.11.09

A Jornada

começar uma jornada é poder compreender ainda mais quem eu sou
compreender a mim mesmo
é poder olhar o outro
poder sentir a dor do outro
sentir a felicidade do outro

poder estar desatado de todos os nós que nos rodeiam
é poder compreender o que é a vida
o amor
a rotina
a passagem

é poder se olhar face a face
se encontrar em si mesmo

é poder viver plenamente o direito de sentir
é não escamotear sentimentos
é sentir que talvez não mais voltarei
mas que também poderei voltar mais humano

seguir esta jornada é poder gritar bem alto
é deixar fluir esse sentimento que me consome
é olhar a vida com olhos verdadeiros

é quebrar os rótulos, as rotinas, os paradigmas
é sentir frio, medo, angústia
é poder dormir este sonho com gosto de quero mais

é poder compreender que esta jornada é apenas mais uma
dentre tantas jornadas que um dia terão fim
é poder entregar-me plenamente a este amor por mim mesmo
pelos outros
pela vida

é estar acordado sonhando
é poder ver o sol nascer, amando
é não compreender o incompreensível

é não sentir remorso

resta-me arriscar esta caminhada
fechar os olhos e deixar o destino me levar
e simplesmente torcer para que na volta
a cama esteja arrumada, o lençol trocado
os travesseiros a postos
e meu amor ainda esteja em mim

28.11.09

ler tem me tornado mais humano...

22.11.09

Macondo

Macondo é aqui
Macondo não é Bogotá, nem Jampa, nem Medellín

Macondo são os destroços dos sonhos construídos
Por gerações a fio

São as aberrações ordinárias por ordem de
São casas pintadas da mesma cor
Que resistem as imposições locais

Macondo foi o sonho da minha geração
Um lugar decente para plantar, sorrir, cantar

Foi uma casinha de varanda,
Com bois, vacas, galinhas
Foi a melancolia que tanto sonhei

Macondo inundou-se em promiscuidade
Em notas trocadas por sexo
Em um não fazer cotidiano

Macondo suprimiu muita gente
Arrasou desejos
Amordaçou as minorias
Sucumbiu em desatinos

Um lugar de veleidades
Quimeras inconclusas
Livros por escrever

Macondo não é um lugar mau
Tornou-se inóspito pela graça
Malfadada de seres egoístas
Ou neófitos convencidos ao acaso

Aqui já foi minha paragem
Tornou-se, agora, meu algoz
Macondo não deveria mais existir

Uma chuva de consciência
Carece destruir, com furacões ferozes,
A última saga de uma geração

E fazer rebentar outra massa
Outro pão,
Um verdadeiro alimento de libertação

13.11.09

surto de realidade

Os encontros juvenis estão tão velhos
e passados
Não encontro mais a turma nos passeios
pela cidade
Enraizado nesta urbe, me alimento
com as fotos antigas
Recomeço minha vida a cada instante

Sonhos antigos embolorados
por sujeitos cretinos
Paisagens esverdeadas, num frio
de quarenta graus

Cercado, perseguido,
Pressinto o perigo se aproximando
Nuvens escalonadas afastam o perigo

Não devo e não pago
Quem deve é quem deve
pagar

Percebo o sulco em minha alma
Desperto a meia noite
E sigo sem sentir
As manhãs com manhas
Desejos e espelhos

Todos os herois morreram em combate
Mas eles continuam vivos,
Na estante lá de casa

Absorto, torno-me uns e outros
Até o primeiro surto de realidade

1.11.09

esta noite caiu

espremi
contorci
gemi
gritei
chorei
amei
me iludi

mas, esta noite c
....................a
..................i
................u
sem ao menos um
poema

24.10.09

Ônibus escolar

Ônibus escolar no interior da PB, sem o vidro traseiro

Festival...

A grande mídia anunciou para este fim-de-semana o "Festival de Fruticultura", uma realização da Prefeitura de Cuité/PB, com apoio do Ministério do Turismo. Dentre as atrações estão Garota Safada, Brasas do Forró e mais algumas daquelas bandas que contagiam a população com apelo barato e formam a consciência daquele cidadão amorfo - tudo isso de maneira deliberada, frente ao caos de fome e miséria que atravessamos.

No dia 23 de outubro o Jornal Correio da Paraíba publicou a ratificação e homologação do processo 051/2009 (inexibilidade de licitação 004/2009) com o objeto de contratação de empresa para realizar o referido festival. O valor? R$ 157.500,00 em favor de Sheila Ricarte Martins (Sheila Promoções e eventos), data de 16 de outubro de 2009. No dia 24 de outubro o edital é republicado por incorreção, mantém-se a empresa, porém o valor é de R$ 118.430,00 (data de 16 de outubro).
A folha de pagamento (agosto) dos 60% do FUNDEB de Cuité/PB (referente ao pagamento dos professores) foi de R$ 134.482,11.

Visitei o portal da transparência e não constatei nenhum repasse do Ministério do Turismo à Prefeitura de Cuité/PB, mas fico imaginando o apoio do MT num evento com esta proposta.

Num momento em que os prefeitos "reclamam" da queda do FPM faz sentido realizar um evento que quase se aproxima da folha de pagamento do magistério? Exatamente numa região onde o Piso Salarial dos Professores não vem sendo implantado!

Outra questão, um valor de mais de cem mil reais é interessante declarar inexibilidade de licitação?

Até quando o dinheiro público servirá para ludibriar o povo com essas bandas de forró?

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I Festival de Fruticultura 24/10/09 - Cuité/PB
Sexta 23
Garota Safada e Forrozão Tempero Completo
Sábado 24
Brasas do Forró e Banda Feras
Domingo 25
Louro Santos e Victor Santos e Forró Pegado

23.10.09

“A UFCG pede socorro. Ela virou o lugar onde a safadeza se transforma em dinheiro.”

Tribunal de Contas da União (TCU)
Processo número 013.568/2009-5
Entrada 16/06/2009
Assunto: Denúncia – possíveis irregularidades perpetradas contra o erário público
Responsável: Thompson Fernandes Mariz
Interessado: Identidade preservada

DENÚNCIA AO TCU CONTRA A UFCG

“Enriquecimento ilícito de poucos e ao desvio de R$ 1.917.501,15 de recursos públicos empreendidos pela cúpula dirigente da UFCG.”

“Há mais de 20 anos um grupo de docentes e servidores carreirista, com pouca qualificação acadêmica e sem compromisso com o ensino e a pesquisa se apossaram dos cargos burocráticos da antiga UFPB.”

“(Thompson organizou a sua campanha a reitor) mediante atos clientelistas, a exemplo da contratação de mais de duzentos terceirizados (via empresas), todos parentes de servidores.”

“O Magnífico precisou cooptar e para tal assumiu compromissos impensáveis, dentre eles contemplar 34 cabos eleitorais com funções de confiança, criadas ao arrepio da lei.”

“Mais uma vez empossado (Reitor) passou a pagar a seus cabos-eleitorais gratificações (mensalão) com dinheiro público, dissimuladas sob a denominação de bolsas.”

“Todos os ‘ficto-bolsistas’ contemplados, na realidade, desenvolvem atividades burocráticas ou de permanente campanha junto à reitoria.”

“A motivação desses ilícitos prendia-se à busca desenfreada do Reitor pelo terceiro mandato consecutivo.”

“O grupo da reitoria conseguiu cooptar conseguiu cooptar várias lideranças sindicais, vários membros dos Colegiados Superiores da UFCG e até o Presidente da Comissão Eleitoral.”

“A reitoria criou mais de 86 gratificações que são pagas a cabos eleitorais, aparte dos contracheques desses servidores.”

“Como contrapartida ao recebimento dessas benesses, a Reitoria cobra mensalmente de cada servidor beneficiário a devolução de 15% do valor bruto que lhe é pago, destinando-o a um fundo de campanha.”

“Prejuízo ao erário no período de 2005-2008: R$ 1.917.501,15
Sonegação de imposto no período de 2005-2008: R$ 492.438,44”

“A esses condenáveis atos vem se somar a prática do execrável nepotismo na UFCG.”

“O resultado desta prática política é o beneficiamento de uns poucos em detrimento de uma Universidade de qualidade que assiste perplexa a sua derrocada.”

“Nos últimos seis anos temos assistido de forma avassaladora à degradação da vida democrática na UFCG. Esse estado de coisas se materializou no seu cotidiano e ganha ares de dramaticidade nos períodos de eleição caracterizados por troca de favores; intimidação e/ou cooptação dos adversários; instrumentalização do cargo de Reitor para fins político-partidário e espetacularização da política.”

“Os órgão colegiados superiores contaminados com bolsistas-mensaleiros ou seus parentes perderam a legitimidade e aprovam o que o Magnífico quer.”

“A UFCG pede socorro. Ela virou o lugar onde a safadeza se transforma em dinheiro.”

17.10.09

Dia de Mobilização em Defesa da Escola Pública

No dia 28 de outubro de 2009 a Turma de Legislação da Educação, da Universidade Federal de Campina Grande (Campus de Cuité/PB), estará realizando o “Dia de Mobilização em Defesa da Escola Pública do Curimataú Paraibano e região”. O evento acontecerá na Praça Cláudio Gervásio Furtado em Cuité/PB às 14h e tem como objetivo ampliar as discussões sobre o controle social dos gastos públicos, especialmente vinculado ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) e aos Conselhos de Acompanhamento e Controle Social (CACS) da região.

Segundo o professor Lauro Xavier Neto, organizador do evento, a iniciativa surgiu das discussões travadas na disciplina Legislação da Educação Básica, ofertada para todos os cursos de licenciatura da UFCG (Campus de Cuité), e motivada pela campanha “Olho Vivo no Dinheiro Público” da Controladoria Geral da União (CGU). “Inclusive a CGU cedeu várias cartilhas que serão distribuídas durante o evento”, diz o professor.

O Dia de Mobilização em Defesa da Escola Pública terá a apresentação de teatro de fantoches, exibição de vídeo sobre o FUNDEB, cartazes de orientação à população, jogos de perguntas sobre o FUNDEB e Conselhos de Controle Social, além de uma aula em praça pública sobre a participação popular nos gastos públicos.

Além disso, haverá uma exposição de livros e distribuição de cartilhas sobre o FUNDEB, Alimentação Escolar, Orientação aos Vereadores, Controle Social e a Cartilha Olho Vivo no Dinheiro Público.

A população também será orientada de como ter acesso aos gastos públicos através do Portal da Transparência e do Sistema Sagres do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba.

O evento conta com participação de mais de 40 alunos da disciplina de Legislação da Educação e faz parte do calendário da Formação Continuada de Professores ofertada pelo Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Educação (NIPEE) da UFCG.

9.10.09

desintegro/entrego

desintegro-me entre paisagens nebulosas
feridas entreabertas
bocejos ao entardecer

desintegro-me ante maus presságios
muxoxos incontidos
bom dia - mal (dito)

desintegro-me em cada viagem
sem destino, sem lua cheia

desintegro-me ao ver o não visto
e não conseguir convencer
meia dúzia

desintegro-me ao ver o riso sarcástico
a derrota de outrem como troféu
migalhas jogadas ao léu

desintegro-me ao ver gente cabisbaixa
num tom lamurioso
silenciado pela força

desintegro-me
desintegro-m
desintegro-
desintegro
desintegr
desinteg
desinte
desint
desin
desi
des
de
d
.
e
en
ent
entr
entre
entreg
entrego
entrego-
entrego-m
entrego-me

entrego-me nesta luta insana
buscando viver mais +
e desintegrar menos -

entrego-me incessantemente
ao meio dia
meia hora, toda hora

entrego-me sem meias palavras
sem meios dilemas
sem meios

entrego-me de olho fechado
às vezes utilizado
por um covarde

entrego-me com dor de dente
com displasia
e sem anestesia

entrego-me por não ter medo
mesmo no probatório
não corro de uma boa peleja

desintegro-me, integro-me
entrego, não entrego

movimento dialético
de algo que não vou ver mudar
mas não cansarei de tentar

4.10.09

Rio 2016

Meu professor salário não tem não
Minha escola não tem plinto
Na verdade todos os alunos são
Do pré ao quinto

Na merenda tem biscoito
O Conselho está irregular
O FUNDEB, sem muito esforço
O Coronel consegue faturar

Meu professor está cabisbaixo
O diretor tem o poder
Rapadura está no tacho
Sem bola no recreio é de doer

Não temos computadores
Nem direito de aprender
Sofremos com tantas dores
Que ainda hão de aparecer

O Lula até chorou
Acho que lembrou
Da nossa escola, que não é toda e sim um pedaço
E nós aqui, temos que ter peito de aço

Disseram que agora o esporte
Invade a escola
Mas, isso é de morte
Nossa escola não decola

Não há escola, há esfarrapados
Não tem badminton, vôlei ou qualquer variedade
São sonhos esparramados
Distantes da realidade

29 bilhões para a o sonho Olímpico
E eu te peço ao menos o piso
Por favor, eu suplico
Para o professor não ficar tão liso

E agora são sete anos
Para aumentar as medalhas
Será que encontrarão os insanos
E nós continuaremos com as migalhas?

Queremos escolas, para cumprir o desiderato
Velho sonho de uma educação de verdade
Longe daquele rato
E da gente cheia de vaidade

As escolas do campo nada têm
Quadro e giz, no máximo
E meus amigos não nadam bem

Não sabemos o que é handebol
Basquete ou voleibol
Só sabemos o que é um pau-de-arara
E não aprendemos nem o salto com vara

Beisebol, hipismo, marcha atlética
Deve ser algo do primeiro mundo
Aqui é gude, pula-corda e banho de bica
E uma corrida até a casa de seu Raimundo

Minha escola nem no IDEB apareceu
É escola do campo e não mereceu
Vai ver que só os primeiros terão vez
No Rio 2016

25.9.09

Manifestação dos estudantes da UFCG (Campus de Cuité-PB)

video

Manifestação dos estudantes da UFCG (Campus de Cuité-PB)











O anacronismo da LDB

Duas resoluções recentes da Universidade Federal de Campina Grande apontam para um retrocesso histórico da instituição. A primeira para escolha do Diretor do Centro de Formação de Professores (CFP) e a segunda, também para escolha do Diretor, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS). Ambas apontam que os docentes terão peso de 70% no processo eleitoral, em detrimentos a alunos e técnicos-administrativos (15%).

Paira no ar o discurso legalista, tomando por base o parágrafo único do artigo 56 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96), que anacronicamente afirma: “Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes.” (BRASIL, LDB, 9394/96).

Para os incautos é bom lembrar dois fatos. O primeiro é que a referida Lei foi aprovada na calada da noite, um tenebroso 20 de dezembro de 1996, período próximo ao recesso parlamentar, numa articulação nefasta dos setores conservadores da nossa política no intuito de derrubar o texto original, mais progressista, que refletia o interesse dos movimentos sociais, parlamentares progressistas e grupos organizados de professores e estudantes. Infelizmente a lógica neoliberal/conservadora venceu a peleja.

Outro fato é o posicionamento do próprio Ministro da Educação criticando o viés conservador da referida lei e propondo alterações na mesma, em especial ao artigo 56. Sabemos que tanto a Constituição Federal, como a própria LDB, já sofreram diversas emendas e alterações e segundo o jurista Fábio Comparato, nenhuma dessas emendas foi realizada por iniciativa popular – uma prova inequívoca da fragilidade da dita democracia popular neste país.

Este é o momento de resistir, pois a alteração de uma lei deve passar inicialmente pelo desejo e, em especial, pelas ações de resistências dos grupos descontentes. E não são raros os casos das instituições que historicamente resistem ao anacronismo do artigo 56. Universidades com o corpo docente mais progressista, com sindicatos de técnicos organizados e os Diretórios de Estudantes e Centros Acadêmicos politizados, já realizam suas eleições utilizando a paridade (1/3 para cada segmento), avocando o preceito da autonomia universitária.

Neste momento é preciso que os movimentos organizados da UFCG ocupem os espaços dos colegiados com o intuito de pressionar os setores conservadores e aqueles que ainda não possuem um pensamento definitivo sobre o assunto, para que possamos unir forças contra o pensamento liberal e positivista, que raciocina a partir do dura lex sed lex. Acreditamos que a “lei é dura” e por isso precisa ser confrontada e modificada.

O momento histórico é propício em alguns campi da instituição. O exemplo de organização e politização alcançadas pelos alunos do Centro de Educação e Saúde (CES/UFCG), quando fecharam o acesso ao campus e realizaram um protesto solicitando melhores condições de ensino, pode apontar para um horizonte de resistência e desburocratização das Unidades Acadêmicas e dos Conselhos caracterizados sob a égide da centralização de poder (por mais que se apresentem como democráticos).

O protesto dos estudantes deixou marcas indeléveis e contribuições inefáveis para a Campus de Cuité. Que este sopro se espalhe como recado para os setores conservadores da UFCG e que consigamos radicalizar a democracia tão frágil na instituição, rompendo de vez com os artigos anacrônicos de uma legislação que carece de modificações substanciais.

Sugiro que possamos aproveitar este momento histórico e encaminhar, caso o coletivo assim deseje, o pedido de revogação do parágrafo único do artigo 56 da LDB para o Ministério da Educação, articulando essa ação com parlamentares e com a negação desta amarra jurídica nos próximos processos de escolha de dirigentes da UFCG.

Lauro Pires Xavier Neto
Professor do CES/UFCG
http://lauroxavierneto.blogspot.com/

19.9.09

sobre o "câncer" metafórico - vide "O silêncio deste mês"

Metáfora
"Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível"
(Gilberto Gil)
====================================
O câncer é uma doença
Mas quando o dublê de poeta diz: "Câncer"
Pode estar querendo dizer as mazelas do dia-a-dia

FANZINE PAULO FREIRE


18.9.09

A balança

A balança acusa 90kg
30% de gordura
20% de massa óssea

alguns quilos de desejos
alguns gramas de intenções

o resto são ideias
e projetos inacabados

13.9.09

Transitado em julgado

Do alto de seu pedantismo
Refugia-se no pedestal
Transitado em julgado
corrupção passiva e ativa

Opressor, um dia oprimido
Carrega o germe da opressão

Povo, virou escória
desamparado
ameaçado

Povo sem voz
sem conselho
falando baixo pelos cantos

O medo brota
O ódio germina
O palanque está armado

A cidade do já foi
Resplandece num lindo pôr-do-sol
Acorrentada pelos desmandos
desvios e covardes

Para onde vai esta cuia?
Toda enfeitada, pintada, de salto alto
Transformada em bom mocinho

Para onde vão tantos recursos?
Transviados por aí

12.9.09

o silêncio deste mês

o silêncio deste mês
é a falta de tempo
que me sufoca

o silêncio deste mês
são as trezentas mensagens
que trancam a pauta

o silêncio deste mês
é o câncer que me destroi
é a metáfora da vida alheia

o silêncio deste mês
são dores nas pernas
nos ombros
na consciência

o silêncio deste mês
é a mordaça do poderosos
a ignomínia de alguns seres

é a idiossincrasia que me esmaga

23.8.09

Em greve

(Para Gabriel)


respiro este ar sufocante
minhas narinas não suportam mais
em greve não trabalham
renegam sua função

preferem asfixiar o corpo demente
do que encontrar respostas ao solene desejo

escuto canções, produzo tensões
procuro nas letras as respostas
mas não existem perguntas

minhas mãos não suportam mais
trabalhar com este coletivo

meus dias não suportam mais
o silêncio, sem bom dia

leio livros, produzo tensões
procuro nas letras as respostas
mas não existem perguntas

meus olhos não suportam mais
tantos desvios

meu corpo não suporta mais
tanta cobrança

o carteiro não veio
não escrevem ao coronel
mais cem dias
mais cem anos
mais um segundo de solidão

lá fora eventos, ventanias
pessoas opacas
outras não fedem, nem cheiram

e minhas narinas continuam em greve de fome

5.8.09

05 de agosto - aniversário da capital parahybana

Estive em quase todos os lugares do nordeste,
e só consegui me encontrar na Parahyba...

"Estive em todos os lugares do mundo,
e só consegui me encontrar em mim mesmo..."
Lennon

Coragem

Criei todas as coragens do mundo
Falhei em alimentá-las -
morreram de inanição...

4.8.09

o sal do mar

O mar é fenomenal,
Cura os males
Da senhora que cata conchinhas

Extasia o casal, alheio aos transeuntes,
Que imita as ondas no vai-e-vem
Do doce amor ao pôr-do-sol

Denuncia a garota de calça jeans
E tênis, que corre louca em sua direção
Parecendo que será engolida pelas ondas

No mar não existe miséria
Basta apenas os miseráveis descobrirem isso
E destronarem os incautos delinquentes

Que teimam em dessalinizá-lo

Subliminar

Ser subliminar ao extremo
É chorar a lágrima sem derramá-la
Ou simplesmente esperar a vastidão da noite
Para soluçar sem parar
É sentir a perda em silêncio
Lembrar da pessoa todo instante
E vislumbrar sua juventude

O fim devastador é insuportável
A pessoa frágil, sonhadora, magricela
Não teve tempo de se despedir
Semeou os campos da solidão com suas lágrimas
Eternas...
Prenúncio de uma alvorada
Prematura...

Ser subliminar, neste instante,
É não poder dizer adeus...

13.7.09

SOBRE A REALIDADE POLÍTICA DA UFCG

Acredito que os problemas enfrentados na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) devem ser analisados por dois flancos:

O primeiro relativo à política neoliberal do Governo Lula da Silva e o segundo sob a via do processo da gestão democrática.

Não podemos, neste momento, escamotear que o Governo Federal não teve a coragem necessária para romper com o sistema financeiro internacional e criar as condições históricas para a transformação radical deste sistema econômico capitalista e dependente. Infelizmente a conjuntura carece de uma articulação política intensa dos trabalhadores, de um modo geral, e em especial dos trabalhadores em educação superior.

Vemos uma desarticulação política e uma ação deliberada do Governo Lula da Silva no sentido de desmobilizar o ANDES-SN, através de uma inusitada entidade, mascarada e com o codinome de Proifes.

Lembro bem que uma servidora recém-contratada pelo CES agradecia “o bom ato” do Presidente Lula em dar-lhe um emprego e esqueceu-se de que a grande trincheira de luta seria o sindicato, mas, como a maioria dos servidores do CES, a filiação nunca aconteceu. Hoje vejo esta servidora, aos prantos, reclamando da exaustiva carga horária do semestre 2009.2.

Nos debates para Reitor da UFCG estavam lançados os elementos centrais da crítica ao REUNI e ao modelo de expansão das universidades federais. Infelizmente o candidato à reeleição minimizava o debate e, por puro proselitismo, jogava a comunidade universitária contra os combativos companheiros que criticam o modelo de expansão escolhido por Lula da Silva.

É impossível debater as questões de falta de servidores no CES sem um aprofundamento desses elementos – para além dos efeitos da chamada “crise mundial”. O quadro é, digamos, aterrorizante e a pedra já estava cantando há muito tempo. Não canso em repetir: nossos Técnicos em Assuntos Educacionais não assumem suas funções, nossos Técnicos de Nível Superior estão em desvio de função e muitos servidores estão seguindo para outras paragens. De maneira inapropriada o grande debate no CES não está acontecendo, o cobertor curto está sendo esticado ora para a cabeça, ora para os pés – num reflexo inconsistente e pouco debatido entre os pares.

As ações são de desarticulação, sintomáticas e inúmeras. A destruição das Coordenações durante as férias escolares, o remanejamento de servidores e a destruição do “corredor político da ‘oposição’” apenas demonstram uma fragilidade em sustentar um discurso democrático e de enfrentamento de ideias. Não é mais admissível uma centralização de poder extrema. A experiência tem mostrado que isto só gera insatisfação no ambiente de trabalho, o surgimento de asseclas e puxa-sacos de toda ordem e ocasiona um clima de revanchismo que prejudica a oferta de serviços de qualidade por parte da instituição.

O modelo atual exige uma Direção colegiada, composta por amplos setores da comunidade, compondo uma estrutura de poder divida por percentuais de votos dos três segmentos da instituição. A discussão sobre um novo modelo poderia estar presente na reformulação do Estatuto da UFCG, mas esta universidade ainda carrega um vício sectário, coronelista, antidemocrático e de caráter fisiologista. Os colegiados são centralizadores, não discutem a opinião da base e assumem as posturas pessoais dos seus representantes. A própria vida acadêmica não é estimula a criar uma cultura de democracia e discussão coletiva.

Para complemento deste debate sugiro a leitura de dois textos do “Le Monde Diplomatique Brasil” deste mês de julho. O primeiro é de Silvio Bava (Editorial) intitulado “Um depoimento pessoal” e o outro é de Otaviano Helene, “Autonomia Universitária – um projeto que não admite contestações”.

Saudações,

Lauro Pires Xavier Neto
UFCG/CES/UAE
Campus de Cuité-PB

24.6.09

Fome

Esta dor no meu peito não é a falta de açúcar ou de sal
É meu sentimento altruísta que aflora
Ao enxergar a fome de um bilhão

Esta dor que me acompanha
É fruto do meu egoísmo
Que deseja assistir a mudança radical
Deste vasto mundo

Enfraqueço, esmoreço, desabo
Fico contando nos dedos
À espera do retorno instável
Da felicidade de bilhões de seres humanos

22.6.09

Germinal (para Emile Zola)

Peço aos caros amigos que não mantenham esta postura pusilânime
Que não acobertem sonhos alheios
É preciso persistência
Cabeça erguida

É preciso olhar o céu de peito aberto

As agruras serão enormes
Traidores serão aos montes
Incontáveis

Cabeças de amendoim não faltarão
Estarão presentes em cada esquina
Mas o sol irá aquecer nossa ira

Amizades artificiais brotarão dos convéns
Dançarão xote, xaxado e baião
Mas não serão tão pungentes
Quanto nosso grito secular

Pequenos brotos germinarão
Neste chão árido
Nesta terra inóspita
Frutos do nosso desejo incontido

Caros amigos não se acovardem
Não permitam esse broto morrer
Sem florir

Não assistiremos o derradeiro suspiro
Dos covardes escondidos
Mas deixaremos as raízes
Para as gerações futuras
Brindarem a nossa memória

Caros amigos...

19.6.09

Pour Anne Frank

Maria, Margarida, duplo ene
que força tem o prenome
que expande horizontes
conta histórias sem parar

minha vida construída por um nome
uma mãe, uma flor, uma irmã

desejo latente de jogar bola
brincar de carrinho
ou simplesmente bater um papo

minha vida foi subindo escadas
amordaçando conflitos
apaziguando acordos beligerantes
mordendo os lábios
e sendo mordido pelo tempo

que reencontro fantástico
e um nome com dose tripla
caráter fortíssimo
alegria contagiante
mundos parecidos e distantes

posso passar horas te escutando
nem preciso abrir a boca
meus olhos falam mais
mesmo que você nem entenda

pinto, bordo, desenho
passo o tempo com amenidades
enxugo lágrimas e devaneios
enquanto aguardo outras conversas
no sopé da minha infância

17.6.09

quantos reis mal coroados ainda teremos que enfrentar?

(Vandré) Recebe a visita de Geraldo Azevedo e os dois finalizam a música, "Canção da despedida", que cita "um rei mal coroado que não queria o amor em seu reinado pois, sabia, não ia ser amado" em alusão ao "rei Arthur", o marechal da Costa e Silva. No refrão, vêm a constatação e a promessa:



- Já vou embora, mas sei que vou voltar / Amor não chora / Se eu volto é prá ficar...



O cantor ultrapassa a fronteira e chega ao Uruguai.


Brasília não assiste ao show de Geraldo Vandré. Em dezembro de 1968, o silêncio vence a música.




MARCELO, Carlos. Renato Russo - o filho da revolução. Rio de Janeiro: Agir, 2009.




Muito mais que uma biografia...

15.6.09

onde mesmo?

Onde me encontro?
No som dos Aviões
Na balada noturna
Contando dinheiro
(não, não, não)

Onde me encontro?
Vestindo black-tie
Assobiando heresias
Comprando carne vermelha
(não, não, não)

Onde me encontro?
Em Wall Street
Na Disneylândia
Ou em Paris
(não, não, não)

Estou nos becos, nas palafitas
No campo e na cidade
Ando me procurando

No cadarço do teu sapato
Nos botões do teu pijama
No porta-luvas do teu carro

Ando com chinelo no pé
Para poder anunciar que estou chegando

sobre o mar

O mar não carece de sol
Basta por si mesmo
Nas profundezas esconde meus desejos

Mergulho mar a dentro

Me esquivo dos náufragos

No mar me embriago
Tomo doses homeopáticas
De sal grosso

Espanto fantasmas
Avisto arraias
Delicio-me com as baleias

No mar procuro golfinhos
Encanto sereias
Canto para dormir

A sinfonia marítima
É o despertar da manhã

Sono, sonho, desejo

O mar basta por si só

12.6.09

1001 - SETUSA


mil e um era a minha liberdade
cruzava casa, escola, amigos
rodopiava lotado
inerte

mil e um era a lei de Newton
gente espremida enlatada
às seis da manhã
nenhum corpo podia se mover
naquele mil e um
com cinquenta pessoas

aluno fardado, passagem gratuita
mil e um - mandacaru-jardim-planalto
vi gente escondida, amorfa
saltando pela porta de trás

por diversas noites dormi
na sua lataria
esperando o ponto final

vi bairros inteiros
diferenças enormes
barracos e mansões

no mil e um
vi o projeto neoliberal
sucatear deliberadamente
as ações do Estado

derrotaram o mil e um
público, gratuito e de qualidade

hoje mil e um são os visitantes
deste blogue

Imagem obtida em: http://www.geocities.com/setusa/

"Cícero primeiro sucateou a empresa e depois vendeu-a a preço de banana em fim de feira".
"Abandono - hoje se encontra vários Setusas em um ferro velho na Av. Cruz das Armas (perto do viaduto do oitizeiro). Uma peça que deveria estar em um museu hoje encontra-se em estado de putefração..." http://www.geocities.com/setusa/

8.6.09

Não é xenofobia

Não entro em sites
Visito sítios

Não faço postagens em blogs
Escrevo blogues

Não uso e-mail
Digito i-meio

Não clico em mouse
Uso o rato

Não bebo coca-cola
Só tomo suco natural
sem açucar

Não é xenofobia
é libertação

Não deixe de assistir: "Home - Nosso Planeta, Nossa Casa"

video

Adoro (para o amigo Manoel Gomes)

Adoro descobrir palavras novas

Adoro teu jeito inefável de escrever



Adoro ter orgasmos literários

quando descubro as palavras

em Clarice



Adoro dicionários

Adoro percorrer os labirintos

escuros dos contextos



Ler quadrinhos

Ler desejos

Reler "O primeiro beijo"



Detesto ler na primeira página

que a "Paraíba é segundo no Nordeste

em número de eleitor

analfabeto"

passados 20 anos... (broche de 1989)



Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.
(Metal Contra as Nuvens - Legião Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

30.5.09

Sister, remember your name!

Não deixe de ouvir Miss Celie's Blues na voz de Renato Russo

Legião Urbana

"Teve um tempo que ouvir Legião Urbana me fazia mal... sabe por que? sabe por que? Eu digo por que: ela falou você tem medo, aí eu disse quem tem medo é você..."
CD/DVD Legião Urbana e Paralamas Juntos (1988)

um instante

olhou fixamente para aquela menina

sentiu a verdade transpirando
o cheiro de gente
contagiou o ambiente

aquilo não acontecia todo dia

a bondade pululava
rebentava o intransponível
o sorriso era a maré mansa desejada

o inopinado acontecia
nunca tinha visto aquele rosto antes
apenas uma expressão foi capaz de denunciar

que ali, na sua frente,

surgia, placidamente, um ser humano
tão raro de encontrar
tão difícil de acreditar

tão marcante de conhecer

apenas uma certeza cimentou aquele encontro
nunca mais teria o prazer de revê-la
mas a plenitude daquele momento

o convenceu que ainda é possível acreditar
na vida

um dia na "Caros Amigos" número 61

Em 2002 mandei uma carta para a Revista Caros Amigos concordando com o polêmico artigo "Esporte Mata". A carta foi publicada e o autor, José Róiz, citou-me na réplica e concedeu-me a cidadania baiana.
=================================================
Por que esporte mata
José Róiz
Dos caros leitores da revista Caros Amigos, um baiano de Jequié, Lauro Xavier Neto, professor de educação física, concordou plenamente comigo, mas André Luiz Gomes de Araçariguama, SP, supõe que esporte nunca mata. Ao ler as duas críticas lembrei-me de uma entrevista que concedi ao programa Sem Censura, onde defendi a mesma tese: esporte mata. Nesse mesmo dia foi entrevistado também o cantor Morais Moreira, tendo ele afirmado que não existe baiano burro. De fato, sempre morei aqui no Sudeste, mas já convivi com centenas de baianos e nunca notei deficiência em nenhum deles.
A afirmativa do outro caro leitor merece explicação. Até concordo com ele, que esporte nunca mata, mas somente quando se trata de longevo. Esta categoria de indivíduos costuma passar dos 85 anos, mesmo comendo “pedra moída” e tomando “sopa de tachinha” todos os dias. Creio que jamais escreveria o livro Esporte Mata se toda a humanidade fosse composta somente de longevos. Mas, como a maioria não é longeva, está sempre sujeita a vários tipos de doença. Mas como o esporte mata? O mecanismo de ação desse tipo de morte merece ser esclarecido.
Meu cunhado sofreu infarto aos 32 anos, jogando futebol de salão, mas não morreu porque deve ser meio longevo, isto é, sua expectativa de vida deve estar em torno de 75 anos de idade, porque seu pai faleceu com 76 anos e sua mãe com 74. A média de idade, nesse caso, é de 75. Mas a medicina não é como as ciências exatas. Às vezes os pais morreram muito jovens, mas alguns dos filhos se tornaram longevos. Isso ocorre com alguma freqüência. Só não sabemos como pode acontecer.
Outro amigo meu teve infarto fulminante aos 55 anos de idade, também jogando futebol de salão. Isso aconteceu porque sua genética deveria ser muito desfavorável.
No tempo em que o método de Cooper estava no auge, todo mundo corria todos os dias no calçadão de Copacabana e nas praças de quase todas as cidades. De vez em quando, um caía estatelado e era levado para o cemitério.
Esse tipo de morte se dá do seguinte modo: quando o indivíduo não é longevo, isto é, quando em seu organismo predomina o hormônio da supra-renal denominado glicocorticóide, cuja atividade é impedir a ação da insulina, que procura “limpar” o sangue, enviando para os tecidos o excesso de muitas substâncias, como a glicose, o ácido úrico, o colesterol, o LDL (colesterol “ruim”) etc., todas essas substâncias tendem a aumentar no sangue. O aumento de LDL determina o aparecimento de placas de ateroma nas artérias e o espessamento delas, diminuindo o calibre desses vasos e, conseqüentemente, a nutrição do próprio coração, que finalmente se obstrui e constitui o infarto.
Havendo na maioria das pessoas a predominância do glicocorticóide, é natural a freqüência do aparecimento do infarto. A prática de exercícios aeróbicos, como a corrida, a natação etc., irá antecipar muito esse desfecho, daí a razão de ser permitido dizer que esporte mata. A antecipação da morte está ligada ao esporte estressante. Ora, se ele é dessa natureza, aumenta a produção dos dois hormônios do estresse: a adrenalina e o glicocorticóide. Portanto, se há aumento de produção de glicocorticóide, é de se esperar que aumente também o LDL no sangue e, conseqüentemente, haja maior espessamento das placas de ateroma.
Há muitos anos pedi a alguns jovens do Minas Tênis Clube que dessem alguns “tiros” na piscina para eu medir a pressão arterial deles antes e depois desse pequeno exercício. Notei que a pressão de alguns estava em 9/12, isto é, era uma pressão convergente, indicando que a capacidade do coração deles era aquém do normal. Esses jovens, praticando esporte, estariam sujeitos a ter o que se chama de colapso, isto é, predispostos a ter uma parada cardíaca e morrer repentinamente. Aqui não entra aumento de LDL no sangue, formação de placa de ateroma e infarto. O mecanismo é diferente, mas esporte mata.
Esporte só não mata longevo, mas esse tipo de indivíduo pode ter infarto. Isso pode acontecer quando ele abusa da alimentação e fica com excesso de LDL no sangue. Sua insulina é mais eficiente, mas ele comeu demais e nem todo o excesso será enviado para os tecidos, ficando um pouco no sangue, para determinar formação de placa de ateroma, e um dia ele pode ser acometido de infarto, que geralmente não o mata.
Esporte só não mata longevo, mas a maioria das pessoas está sujeita a ser faturada por ele, principalmente nessa época de muita agitação em que vivemos. Atualmente há mais estresse do que há cinqüenta anos, isto é, a produção de glicocorticóide está muito aumentada na maioria das pessoas. Muito cuidado, esporte mata!
Indivíduo muito musculoso geralmente tem mais força física. Mas não vá pensar que ele é também mais sadio e possa viver mais do que você. Isso não acontecerá nunca. Pelo contrário, ele tem menos saúde e viverá menos do que o indivíduo normal. A razão disso está na sobrecarga do coração do atleta para alimentar também todo o excesso de tecido que foi criado. Ele foi feito para ter músculos de dimensões normais. A natureza jamais os faria hipertrofiados. Não faria porque, se os fizesse assim, estaria contrariando a si mesma, isto é, a perpetuação da espécie, pelo que ela sempre lutou.
A aptidão atlética encurta a vida porque ela se liga ao excesso e todo excesso é causa de envelhecimento. Essa afirmação é outra maneira de dizer que esporte mata.
Fonte: Caros Amigos nº 61 (abril de 2002)

Evento

mais um evento
brisa, rajada, ventania
cantilena - nos faz dormir

mais um evento
aragem, chuva forte, corre-corre
palavras soltas - nos faz criticar

mais um evento
queixume, conjuntura, stalin-trotsky
desavenças incessantes - nos faz chorar

mais um é vento
sem propósito
sem fronteiras
logo cedo acordei
e seguirei para mais um
evento

29.5.09

A banca

não confio em bancas

em bancos

não confio em tantos números



bancarrotas de desejos

bancas marcadas

para morrer



bancas que definem vidas

atormentam os sonhos

destituem os desejos



bancas injustas

meritocráticas

individualistas

terminalistas



bancas de relatórios

assinaturas mil

arrazoados infinitos

bancas que nos arrasam



bancas mudas

sem poemas

sem rimas

bancas rudes



detesto bancas

bancos

filas

notas

reprovações



detesto bancas

que desfiam o saber

tecem horrores

e aprovam o vazio

Procuro amigos

Procuro amigos
nas gavetas do escritório
nas sarjetas da cidade sanatório
nos escaninhos da vida alheia

Procuro amigas
que vivem com pouco dinheiro
apreciem um bom livro
rejeitem o cinema que aí está

Procuro amigos
de Carne Trêmula
do Manifesto
Do panfleto
do suco de laranja
sem açúcar

Procuro amigas
que apreciem cerva preta
não tenham preconceitos
nem religião

Procuro amigos
que me critiquem
adorem café gelado
e ainda acreditem na transformação

Procuro amigas
que falem com o coração
gritem palavras uníssonas
escrevam cartas de amor

Procuro amigos
que não se vendem
não contem dinheiro
e não assistem novelas

Procuro amigas
de longa data
que gostem de histórias velhas
e de novos sonhos

24.5.09

Capitão Feio e seus amigos!




meu curioso amigo



PARA SANDOVAL BUTTON
A primeira impressão, um sorriso marcante
Uma voz sincera, um tom compassado
A sinceridade brota dos teus ossos
Contagia os ares e se expande mundo afora

Ah, Camarada, de tantas histórias
Do Movimento sem fim

Teu ar enche meus pulmões
Vocifera, brada, equilibrado
Não aumenta o tom,
... mantém o respeito

Teus olhos chorões,
Tua alegria
Teu broto germinando
Em dose dupla
Reverbera mundo afora

Ah, Camarada, tu és curioso
Tua leveza traz juventude
Tua clareza, mansidão
Revigora mundo afora

Sê mais que tu és
Ombro amigo
Beijo sincero
Ser humano que quebra a lógica
Egoísta deste mundo,
Que nos separa

Tua cadência alumia
Mundo afora
Ilumina o futuro
Grãos de areia,
Próximos a brotar

Ah, Camarada,
Que a tua próxima geração
Seja a bandeira desfraldada
Do novo mundo
Mundo afora...

3.5.09

O choro e a razão cínica

Encontrei esse texto meu, escrito em 2003, na página "Chico Terra - imagens e notícias da Amazônia" e resolvi republicá-lo no blog.

Escrito por Lauro Xavier Neto
01-Dec-2003
Dois episódios marcaram esta semana a história política do Brasil. O primeiro foi o prelúdio de uma coragem que não vingou, o segundo representou a coragem de um choro soluçoso. A imprensa escrita registrou o primeiro, a TV Senado o segundo – eternizaram na memória dos brasileiros."O Triunfo da Razão Cínica" – artigo de César Benjamim na Caros Amigos número 80 – parecia o anúncio da coragem da esquerda brasileira em romper com os esquemas perniciosos do Governo brasileiro, junto à estrutura imperialista na qual continuamos dependentes.
Parecia um ato organizado de subversão à ordem vigente, um grito ressoante que faria chegar aos ouvidos de milhares de militantes do movimento social como um sinal beligerante do coordenador da Consulta Popular. "Veja bem nosso caso é uma porta entreaberta", já alertava Gonzaguinha que parecia caminhar de mãos dadas com um Benjamim denunciador, consciente e exasperado com a situação de degradação que se encontra o Partido dos Trabalhadores. Na denúncia, o autor de olhos bem abertos, mostra representação da Articulação, que diz não ter o poder, mas tem o Governo (de coalizão), que num continuísmo descabido despreza o sonho de milhões de brasileiros, ignora aqueles que construíram o partido e cede favores e a legenda a todos os mentecaptas, corruptos e assassinos do passado, hoje aliados e responsáveis pela governabilidade.Benjamim aponta a onda de desemprego, porém esqueceu (ou não houve mais laudas) de denunciar de forma contundente as reformas burguesas que o Governo vem impondo aos trabalhadores, os cafés da manhã com Bush Jr. no intuito de apressar os acordos da ALCA, a liberação dos transgênicos, a demora no Plano de Reforma Agrária, o criminoso superávit primário que retira dos cofres públicos dinheiro que deveria estar a disposição do país, e ao contrário serve ao FMI.
O país continua o birô dos interesses do imperialismo norte-americano que mata milhares de pessoas com a sua ganância capitalista.O PT só quer o poder, anuncia e denúncia o escritor. Nessas mesmas linhas o jornalista paraibano Oduvaldo Batista já anunciara num dos jornais da capital mais verde do Brasil: "O PT foi criado pela ditadura militar, articulado pelo Golbery". Difícil acreditar nesse pensamento? Uma pátria semiadormecida, desarticulada politicamente, uma Central de Trabalhadores calada ante o desmonte de garantias previdenciárias, um estrondoso número de militantes catatônicos, afônicos ou cantando em prosa e verso um discurso neoliberal, "alguma coisa está fora da ordem?".
O Benjamim não pede para o Lula fazer uma revolução, mas pede desculpas no outro dia pelo que escreveu. Acreditem! Os leitores cadastrados no sítio da Caros Amigos receberam uma mensagem eletrônica do autor se dizendo raivoso e maniqueísta. "Recuem nobres cavaleiros, não é chegada a hora de avançar". Pasmem! Tática, estratégia, ou covardia contagiante? Não, Benjamim, não me senti agredido com seu texto, ao contrário, senti um regozijo (efêmero) acreditando ser a hora de juntarmos esforços e esperanças, num sentido concreto, e não cínico, em busca da tomada de poder pelo povo brasileiro.Ao fechar a revista, ao ler a mensagem de desculpas, sigo para a TV. A reforma da previdência está para ser sacramentada pelo Senado. Já havia passado pelos "trezentos picaretas" e só necessitava de 3/5 de 81. Quantos/as senadores/as representam a vontade do povo? Repito a pergunta: quantos mil reais se faz um senador/a? Quanto vale a ideologia e a consciência de um/a parlamentar? Quantas noites de sono custou ao Mercadante (um homem inteligente já dizia minha mãe) a permanência de Toinho Malvadeza no senado?
Só encontrei uma pessoa de coragem, chorosa, mas corajosa naquele parlamento. Assisti com emoção ao discurso de Heloísa Helena na TV senado, que mostrou a todos os covardes, outrora militantes do povo, a história do PT contada não por intelectuais, mas por aquela que ajudou a construir um partido às custas de por em risco sua própria vida, lutando contra coronéis e reacionários que junto ao poder não queriam largar o osso, caminho político apontado por Benjamim em seu texto. Não bastante tudo que se passava naquela sessão, vem o Mercadante e cita o Max Weber, assume que não tem coragem de colocar em risco o poder tão sonhado, que não pode fazer nada pelo povo tão sofrido e que o dragão da maldade, travestido de imperialismo, venceu a história daqueles que construíram um partido dito popular. Responsabilidade e convicção não se misturam, segundo o economista, e o pragmatismo do Governo não consegue observar a fome e a brutalidade para com o povo brasileiro, não enxerga um palmo a frente a ideologia que aparentemente sempre construíram. Fico com o prelúdio do Benjamim, com a lágrimas da Helena e repudio o cinismo do homem inteligente.
O PT e sua sede de poder acabam por ressuscitar figurinhas carimbadas da história reacionária do país. Acende a chama do Mão Santa (PMDB/PI), faz surgir o Efraim Moraes (PFL/PB) e tantos outros direitistas que fazem jogo de cena para fantasiar com a mente da população brasileira – o grande circo está armado. Por outro lado, e a dialética permite isso, a firmeza da senadora chorosa não se apagará da mente daqueles que acreditam na transformação social, não aquela transformação por demais demostrada que corrompe as almas, os bolsos e os egocêntricos, a transformação propriamente dita, aparentemente conclamada na coluna de Caros Amigos e realmente esbravejada da tribuna do senado.
Enfim, entre o choro e a razão cínica germina no país um sentimento de frustração, bem demostrado pela Heloísa Helena, uma amargura sem precedentes daqueles que ajudaram a construir um sonho e acabaram por propiciar um ato desavergonhado de entrega do Brasil ao capital estrangeiro e aos interesses das corporações. Cabe agora enxugar as lágrimas e iniciar o comando de uma ação nunca expressa em revistas ou transmitida via satélite pela TV. Uma ação coordenada sem choro, nem cinismo, porém eficaz em suas conquistas de liberdade, soberania e luta popular._______________________________________________________
Lauro Xavier Neto é professor de Educação Física na UESB, mestrando em Educação Popular na UFPB.

25.4.09

Um poema terceirizado

Terceirizar um poema
é retirar sua essência
Deixá-lo sem voz
Usurpá-lo do mais belo

Terceirizar um poema
é não deixá-lo articular
Com a prosa e o verso
Sem rima, nem métrica

Terceirizar um poema
é ofertá-lo o cálice
Silencioso e amargo

É pagar meia entrada
Meio salário
Salário e meio
É saldar dívidas do patrão

Mas a voz reprimida
Dialeticamente
Enche os pulmões
Torna-se voz expandida

Cada gota de repressão
Um ressoar consistente
Uma indignação patente
Uma organização latente

Fora patrão que terceiriza
Nossos sonhos
Que nos oprime
Que nos torna celetistas
Num mundo estatutário

Um poema terceirizado
É amorfo
Mofado
É a estratégia de amortização
De sonhos vindouros

Viva o poema livre
Sem patrão, sem opressão
Viva o salário justo
Sem remendos
Divagações
Ou digressões

30.3.09

Crítica Literária

O enfadonho desejo de ser um escritor
Jornal Primeira Página - Março de 2009

Tenho acompanhado os escritos do Lauro Xavier, seja por meio das mensagens enviadas por correio eletrônico, seja no blog do pretenso escritor.
Desta vez resolvi que minha coluna semanal trouxesse uma crítica literária ao trabalho do jovem. Sei o quanto é difícil escrever crônicas e poemas neste momento histórico onde meio mundo possui páginas na internet e acesso imediato às informações.
Mas qualquer tentativa de escrever um poema ou texto deve estar crivada por um processo que remeta o mínimo de coerência e qualidade. Caso contrário qualquer um pode se achar um Fernando Pessoa ou mesmo a Clarice Lispector. Parece-me que o Lauro Xavier bebe da água desta última escritora ao ponto dos seus últimos escritos perderem, totalmente, sua identidade.
Este é o risco que corre os jovens escritores. Parece que lhes falta pensar numa literatura de vanguarda, com marcas próprias e bem alicerçadas no tempo histórico.
Outro grande problema é a diversidade na narrativa. Os textos no blog aparentam ser uma coletânea surgida de um encontro juvenil de literatura e financiada por uma instituição de caridade de jovens infratores. Tem-se de tudo, uma salada de frutas não comestível e de sabor amargo.
Eu poderia até ser mais radical e, digamos, conservador. Afirmar que falta métrica e rima, bom-gosto e desejo e ao menos uma função teleológica no trabalho do jovem imberbe poeticamente.
De fato falta tato para o trato com a poesia (trocadilho imperdoável), mas este é o risco de querer escrever e divulgar os trabalhos. Fico à vontade para escrever estas linhas, pois o próprio "poeta" solicita, num dos seus poemas, uma crítica diária e necessária para poder construir sua autocrítica.
Pedido feito, análise realizada - tais escritos não poderiam passar incólumes.

Frederico Linho
30 de março de 2009

24.3.09

a descoberta do mundo (II)

Estava deitado, cercado pelos travesseiros. O quarto naquele momento era seu quartel-general, refúgio das perguntas indóceis e frequentes do seu pai.
Mas aquela trincheira vulnerável, apesar de deixar claro o desejo da solidão, permitia o avanço das questões que por anos o atormentava.
Subitamente a figura do pai escapava pelas lacunas indefesas do quarto e apresentava-se em forma de perguntas difíceis de respostas.
- Meu filho, onde está a namorada?
Realmente o que responder aos 17 anos? O primeiro desejo é aquele incontido de penetrar na mente do pai e observar que, no fundo, o que incomodava na ausência do par feminino nada mais era do que a imagem dolorosa de ter um filho homossexual.
O segundo desejo era poder vociferar para o pai temeroso, que nada daquilo era certo. Que as longas horas atracado com o travesseiro entre beijos e gemidos fantasiosos, representavam a louca vontade de estar sendo correspondido por aquela menina magra, de pele clara, de sorriso espontâneo e longas pernas.
Amava plenamente aquela magricela e infelizmente não era correspondido. Quase dois anos de declarações, de poemas escritos em letra ininteligível, formatos obscuros de garrancho e tentativas frustradas de beijá-la. Desejava infinitamente convidá-la para ir a sua casa e poder apresentá-la como a pessoa amada.
Mas, invariavelmente, todas as artimanhas idílicas fracassaram. O pior era não saber o motivo da não correspondência amorosa. Buscava diuturnamente respostas para aquele naufrágio sentimental.
Pensava na falta de maturidade ou na não equivalência da condição social. Talvez fosse o perfume equivocado ou a timidez excessiva.
Nada disso o convencia, pois outros garotos mais imaturos e bem menos cheirosos conseguiram beijar aquela boca carnuda e sempre laboriosamente falante.
Certa vez, durante uma daquelas confraternizações juvenis, foi flagrado por um flash focando seu perfil. Curioso teve acesso à foto da máquina do amigo. Aquela imagem reformularia todos os seus conceitos estéticos e enterraria os fantasmas que o cercavam.
Correu para casa, para o quarto de sua irmã. Tirou o grande espelho da parede, peça emblemática da vaidade feminina e correu para o banheiro. Desejava ver-se de perfil no jogo de dois espelhos. Até então não tinha idéia dos estragos da acne em seu rosto. Porém, esta não seria a descoberta avassaladora. Descobrir seu perfil e tomar ojeriza daquela imagem justificava de pronto toda aquela aversão da jovem magricela. Agora não mais creditava o insucesso com as garotas a um despreparo amoroso. E o pior, o motivo precípuo era irremediável.

canção de retorno

incrédulos desejos
estocados de passado
sucumbidos em boa-hora
delimitados pela consciência
desejo interminável de ouvir uma
história que pudesse reverberar num

final feliz

soluços, soluços
devaneios e ilusões
presas fáceis de impulsos
de sentimentos casados
e momentaneamente
inseparáveis

apenas mais uma história
entre tantas que já ouvi?

ao contrário, a mais longa
viagem insólita
pelos labirintos
insuspeitos de uma lágrima
intensamente derramada

chora copiosamente a verdade
enclausurada
amargada
e pacientemente construída

flui a vida glamourosamente
decepada
porém vivida no limiar
intangível de um duplo
ressoar

entre o risco da morte
e o não querer sobreviver
é melhor atirar-se no rochedo
e respirar profundamente apenas
por um segundo

vida plena,
magoada,
maltratada,
mas vivida intensamente

22.3.09

dois mundos

vivo dois mundos
um na capital
outro no interior

dois colchões
duas escovas
duas havaianas

dois mundos
dentro de mim mesmo
dois sentimentos

um na semana
outro no fim-de-semana
vivo na estrada

vivo na zona rural
na urbana
no político
no espaço sideral

vivo nos mundos
tentando não ser mudo
vivo perseguindo outro
mundo

mundo altruísta
mais honesto
mais coletivo
vivo no meu sonho

sonho de dois mundos...

15.3.09

sede de que mesmo?

sede de uma escola
com computadores
internet
cadeiras para sentar

sede de uma professora
bem remunerada
com formação continuada
com salário digno

sede de pessoas
que compreendam
esta situação
que deixem de lado
seus umbigos

sede de trabalho
para meus pais
agricultores
sem a terça
parte para dividir

sede de mais copos
onde eu possa beber água
copos azuis, amarelos, vermelhos
copos limpos
sonhos doces

sede de água tratada
em abundância
de filtros eficazes
de velas limpas
para que eu possa içar meus sonhos

sede de lazer
de ser criança
de correr, saltar, gritar
de poder ser escutado
de poder escutar

sede de médico
enfermeiro
dentista
chiclete
pipa

sede de virar o jogo
compreender o mundo
ter liberdade
derrubar os muros
de viver intensamente

"Você tem sede de que?"

Aluno da Escola Municipal Francisco Simões (Sítio Retiro dos Simões - Cuité-PB). Este aluno estuda numa escola multisseriada (do Pré ao 2o ano). A professora mora na zona urbana de Cuité e todo dia segue de pau-de-arara para a escola, saindo às 04h30 da manhã.


23.2.09

a crise e a crase

entro em crise
quando paro de pensar
entro em crise
quando penso demais

entro em crise
quando nada faço
entro em crise
quando coisa demais
tenho que fazer

entro em crise
toda noite
toda hora
toda morte
toda vida

entro em crise
quando em festa
supérflua
entro crise
quando ação concreta

entro em crise
quando vejo
o mundo em crise
quando todo mundo
só fala em crise

entre a crise e a crase
resta-me não acentuar
o bom português
e a minha crise

a dor do trabalhador que não pensa

sinto dor
só de pensar
que para não
sentir mais dor
terei que pensar

11.2.09

coerência

acordo cedo,
logo persigo minha coerência,
clamo pelas críticas,
realizo autocrítica,
vou dormir em paz.

7.2.09

na realidade diária do trabalhador

dez horas
fome dolorosa
estranho desejo
de não mais trabalhar
amanhã

o colchão desconfortável
denuncia
é hora de acordar

mas a noite ainda é escura
o galo demorará a cantar

lembrança tristonha
do amanhecer
ônibus de madrugada
trabalho árduo sem parar
o lucro para o patrão

almoço minguado
lanche gorduroso e barato
suco feito garapa
embrulho no estômago
só de pensar

o caixa não para
olho para o gerente
catatonia vespertina
vontade passageira
de matar o chefe

mas ele está na Europa
férias merecidas com a família

ah, se eu pudesse
iria conhecer Madagascar
ilha do amor
mas disseram que lá
tem um surto de cólera

o cliente chamando
deseja uma peça para o equipamento
mais lucro para o patrão

no próximo mês o salário aumentará
sobrarão tostões para pagar o IPTU?
tanto imposto, para onde vai?

ano que vem tem eleição
aquele deputado voltará ofertando
mais cem reais?

outro cliente
carrega um livro na mão
faz tempo que não leio
o corpo padece ao fim do dia
só me resta a tv globo

o galo cantou
o sonho acabou
vou vê-lo daqui a pouco
na realidade diária do trabalhador

6.2.09

A precarização do trabalho docente (II)

Em outubro de 2008 o DIEESE estipulou o salário mínimo necessário em R$ 2.014,73. O salário necessário é aquele que garante ao trabalho e à sua família o atendimento às necessidades vitais, como educação, lazer, moradia, alimentação, vestuário, transporte – a partir dos preceitos constitucionais.Em julho de 2008, o Governo Federal instituiu a Lei 11.738 garantindo o Piso Salarial Nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. O valor do piso deve estar vinculado ao Plano de Carreira e Remuneração do Magistério e deve corresponder ao valor de R$ 950,00 para àqueles profissionais recém-contratados e que possuem formação de nível médio (modalidade Normal), para uma carga horária de 40 horas semanais.De fato, o Piso Salarial do magistério público já nasce defasado e não garante melhores condições de vida e trabalho aos profissionais da educação básica. Este é um dos elementos presentes no processo histórico que deteriora a escola pública, desestabiliza o trabalho docente e agrava a saúde do profissional.Com um Piso de R$ 950,00 resta ao professor procurar outros empregos, fazer bicos ou ter uma jornada diária nos três turnos. O salário do professor deveria garantir a dedicação exclusiva em uma única escola, construindo assim uma relação mais ampla com a comunidade e um envolvimento constante com as atividades de planejamento e formação continuada.Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996), dizia que ensinar exige luta em favor dos direitos dos educadores. “Se há algo que os educandos brasileiros precisam saber, desde a mais tenra idade, é que a luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles. A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como um momento importante de sua prática docente, enquanto prática ética. Não é algo que vem de fora da atividade docente, mas algo que dela faz parte.” (Freire, 1996:66)Na Paraíba o quadro é preocupante. Ainda vigora a relação ilegal de contrato precário de trabalho entre o poder público e a classe docente, infringindo os aparatos legais. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), diz, em seu artigo 67 que “Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público: I - ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos.”Os contratos precários não obedecem aos preceitos legais da relação trabalhista. Os professores não possuem vínculo com o regime estatutário e nem tampouco são celetistas. São presas fáceis de uma política horrenda que humilha, maltrata e gera uma relação de subserviência com os donos do poder. Tenho conversado com os professores vítimas deste processo.Ontem uma professora da área de exatas, do interior da Paraíba, confessou-me a humilhação que passou para conseguir a liberação de suas atividades pelo menos um dia na semana. Insistentemente procurou a diretora da escola estadual, que desdenhava de seu pedido. Não há fuga nestes casos. O professor, de contrato precário, é o elo frágil nesse processo estúpido de dilapidação da escola pública. O resultado deste processo é danoso ao desenvolvimento do estado. Apenas 12 vagas foram preenchidas por um dos cursos de licenciatura oferecidos pela UFCG em Cuité-PB. Sobraram vagas para outras tantas licenciaturas. A visão de uma profissão mal remunerada e totalmente desprezada pelo poder público, afasta os jovens do magistério.Em João Pessoa/PB conversei com vários professores da rede municipal. Muitos deles recebem líquido R$ 350,00, para uma carga horária de 20 horas. São os chamados Prestadores de Serviço, contratados sem seleção pública e alguns com mais de uma década nesta situação. A Lei do Piso Salarial garante aos professores que 1/3 de sua carga horária seja para atividades de planejamento. Aos prestadores de serviço não cabe a lei, são vinte horas de sala-de-aula e a luta incessante pela sobrevivência em outras paragens.Dessa maneira não é possível acreditar na escola pública. Esta apenas servirá para perpetuar as mazelas do sistema capitalista e fomentar a rede privada de ensino. Por outro lado, só a luta organizada dos trabalhadores em educação pode alterar este quadro. As perspectivas de organização também estão fragilizadas pelos contratos precários. Muitos professores sentem-se acuados sabendo que, qualquer tentativa de manifestação ou organização, podem ser sumariamente “demitidos”, sem direito a apelação. Muitos deles nem chegam a receber cópia do “contrato” de trabalho. Neste momento este é o papel do sindicato, porém é preciso travar uma luta ideológica contra o processo de cooptação tão em moda nos dias atuais.Esta luta não é apenas dos professores, faz parte do processo mais amplo do desejo de transformação de nossa sociedade, que, a passos largos, caminha para a barbárie.

Precarização do trabalho docente

Estamos na luta contra a precarização do trabalho docente e, em especial, pela contratação imediata dos professores que realizaram o concurso da PMJP e ainda não foram convocados. Lembrando que ainda perdura na PMJP a triste realidade de professores prestadores de serviço recebendo R$ 430,00 mensais (líquido R$ 350,00) para trabalhar 20 horas, contrariando a LDB e a Lei do Piso Salarial. Uma prática deixada pelo nefasto Cícero Lucena e que gera uma horda de trabalhadores fragilizados por uma política de dependência e subserviência.
Sabemos que o vestibular não é um bom referencial, mas os 5.000 zeros nas provas da UFPB e UFCG podem apontar, quantitativamente, a precariedade do ensino público no nosso estado. Enquanto isso as escolas particulares festejam os milhares de aprovados. É isso que chamo de sucateamento deliberado, em favor da burguesia desse país.
MOVIMENTO NACIONAL CONTRA A REGULAMENTAÇÃODO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA

MOÇÃO DE APOIO
O Movimento Nacional Contra a Regulamentação do Profissional de Educação Física (MNCR) vem, por meio desta, prestar apoio aos professores de educação física concursados pela Prefeitura Municipal de João Pessoa, no ano de 2008, solicitando sua imediata contratação. No âmbito nacional é possível constatar as políticas de sucateamento do ensino público por meio da falta de investimento neste setor, materializada, entre outras, na precarização do trabalho docente. Tal como em João Pessoa, várias prefeituras e estados mantêm o sistema educacional em funcionamento por meio de contratos temporários, deixando explícita a falta de concursos públicos no país. Assim, uma vez realizado um concurso da magnitude do ano passado, é de suma importância que se garanta a contratação dos professores concursados, não só para assegurar-lhes o direito garantido ao trabalho, mas sobretudo assegurar uma melhor educação para aquela rede municipal de ensino. Defendemos os direitos e conquistas dos trabalhadores. Lutamos pela regulamentação do trabalho de forma a garantir os direitos básicos a todos os trabalhadores. Pela contratação imediata dos 115 professores concursados pela prefeitura de João Pessoa, em 2008!
Salvador, 30 de janeiro de 2009.
Movimento Nacional Contra a Regulamentação do Profissional de Educação Física http://www.mncr.rg3.net/mncref@uol.com.br

27.1.09

continuo escrevendo

ero, escrevo
erro, di novo
jogo f o r a
detesto

piso
amasso
desisto

leio
odeio

mesmo assim

envio
critico
releio
outru erro

não presta
insisto

continua ruim

dejeto
enjoo
deleto

sem rima
sem trama
sem gosto

insulso
insípido
inodoro
incolor

linhas tortas
forma de bolo

repasso
criticam
corrigem
comentam

mas
continuo
escrevendo

26.1.09

Não há nepotismo, não há nepotismo

Parentes de toda esfera
Colateral, bilateral, primo, cunhado, enfermo
Todos nomeados, todos nomeados
Não há nepotismo, não há nepotismo

A súmula do jogo escancarou o verbo
O cofre foi aberto, gerando mais verba
Dinheiro público pagando
Restos de campanha
Não há nepotismo, não há nepotismo

Ninguém mais é competente
Meus parentes são heróis
Não há confiança no povo
Só os meus me defendem
Com unhas e dentes
Não há nepotismo, não há nepotismo

Esposa, filho, nora, irmão
Cidade com dez mil, vinte mil
Todo mundo é parente
Mas poucos participam do banquete
Não há nepotismo, não há nepotismo

O povo do lado de cá aplaude
O povo do lado de lá reclama
Maniqueísmo eleitoral
Sem o mínimo de autocrítica
Não há nepotismo, não há nepotismo

MP não se vê
STF garantiu
TP, todos podem
Fazer a farra
E passar na TV
Não há nepotismo, não há nepotismo

Na capital, no interior
Todos dão o “bom” exemplo
Irmão meu é competente
Dinheiro público para a família
Não há nepotismo, não há nepotismo

Sobras de campanhas
Restos a pagar
Saldo em caixa
Caixa-dois-do-jeito-que-dá
Não há nepotismo, não há nepotismo

Socialista não dá exemplo
No interior quem dirá
Segue a farra meu amigo
O contribuinte pagará
Não há nepotismo, não há nepotismo

Cante lá, que eu canto cá
Já dizia o Patativa
Povo lá, parentes cá
Já diziam os governantes
Não há nepotismo, não há nepotismo

Agora não tem jeito
Povo já viu para que serve eleição
Eleger a gatunagem
A família toda empregada
E eu cá passando fome
Não há nepotismo, não há nepotismo

Não haverá nova eleição
Povo na rua
Poder de transformação
Saco cheio de arruaça
Não haverá nepotismo
Em nenhuma cidade
Desta nação!

Perguntas de um servidor que lê

Quem construiu a UFCG, a dos sete campi?
Nos livros vem o nome dos diretores,
Mas foram os diretores que transportaram as pedras?
Cajazeiras, tantas vezes construída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
De sol-a-sol moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronto o Campus de Pombal para onde
Foram os seus pedreiros? O grande Campus
Está cheio de salas de aula. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Reitores? O tão cantado Cuité
Cheio de tecnologia
Para os seus estudantes? Até a controversa eleição
Na noite em que se contaram os votos
Viu candidatos gritar pelos terceirizados.

Os jovens temporários conquistaram o interior
Sozinhos?
Venceram as oposições.
Nem sequer tinha um prestador ao seu serviço?
Quando abriram as urnas
Gritaram. E ninguém mais?
Disseram que expandiu a universidade nos últimos sete anos
Quem mais a expandiu?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada campus um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

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Perguntas de um operário que lê (Bertolt Brecht)

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas