Páginas

22.4.19

A cor do silêncio

Silêncio, qual a sua cor?

 luto enegrecido
                             ou amarelo agradecido?

será azul turquesa
                                 ou marrom beleza?

Silêncio, qual a sua cor?

não me diga nada
apenas mostre o seu tom

Silêncio, qual a sua cor?

será um roxo dolorido
                                       ou um tom colorido?

Silêncio, qual a sua cor?

Será uma cor de dor?
                                    de amor
                                                   ou de torpor?

por mais que eu insista
não há nenhuma pista

só o silêncio como resposta

27.3.19

Piso Salarial do Magistério


Vi na página da Câmara Federal, no dia 26 de março, a realização da sessão alusiva ao Dia Nacional do Piso Salarial dos Professores. Tomado como um grande avanço para o magistério, os professores não têm muito a comemorar. Primeiro, porque a Lei do Piso do Magistério estabelece como referência inicial o salário dos professores que têm a Formação Normal (Magistério de nível médio) e não estipulou uma porcentagem de aumento salarial para graduados, especialistas, mestres e doutores. Tal valor da progressão ficou ao sabor das leis municipais que quase sempre não são favoráveis ao magistério. Segundo, a Lei do Piso acabou virando a Lei do Subsolo, pois estabeleceu uma carga horária de referência de 40 horas de trabalho e os gestores municipais e estaduais acabam por fazer uma regra de três para carga horárias abaixo de 40 horas, rebaixando ainda mais o valor do Piso.

Tomo dois casos recentes, de duas prefeituras do Estado da Paraíba que realizam concurso em 2019, para mostrar essa dura realidade. A prefeitura de Lucena oferece um salário bruto de R$ 1.835,37 (26 horas) e a Prefeitura do Conde, com a oferta de salário de R$ 1.607,96 (25 horas). O piso salarial do magistério foi reajustado para R$ 2.557,74, em 1º de janeiro de 2019, portanto o valor pago pelas prefeituras é bem inferior a este valor. O salário dos professores da Educação Infantil da Prefeitura de Lucena é ainda mais perverso: R$ 1.595,98.

Com esta realidade, não há o que comemorar!

https://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/EDUCACAO-E-CULTURA/574092-CAMARA-COMEMORA-DIA-NACIONAL-DO-PISO-SALARIAL-DOS-PROFESSORES.html

13.3.19

A última sopa


Lambia copiosamente a panela transbordando com a sopa de ervilha. Mais uma vez, havia prestado atenção na receita antes do pior ter acontecido. Viu as batatas e cebolas cortadas sob a pia, observou a marca do óleo de oliva e as pitadas de sal. Sempre achou exagerado o tempo de cozimento e sempre resmungava que as proteínas poderiam se exaurir àquela temperatura. Mas, aquele caldo era único, um sabor que nunca encontrou nem mesmo nos melhores restaurantes. Por muitas vezes, tentou repetir a façanha e o máximo que se aproximava era com o verde daquele prato. Continuava a lamber cada gota da panela, pois sabia que era a última vez que sentiria aquele sabor, tomando cuidado para não pisar no corpo inerme que repousava no chão da cozinha. Num esforço hercúleo, tentava evitar que as lágrimas caíssem sobre a sopa e estragassem aquele sabor fenomenal. Por fim, esfregou os dedos na panela, descolou restos apurados que estavam pregados, e finalmente limpou todo o fundo e as laterais até encontrar o reflexo do seu próprio rosto. Nunca mais suas papilas sentiriam aquele sabor. Terminada a procissão gustativa, teria que iniciar o ritual de despedida. Ela se foi, inesperadamente, logo após passar a sopa no liquidificador e retorná-la à panela. Apenas um suspiro marcou a distância entre a dor e a morte – foi tudo muito rápido.

8.3.19

Necrotério

nunca mais visitei o túmulo dos poemas-mortos
nunca mais joguei cinzas ao vento
nunca mais uma banda de rock musicou meus escritos decadentes

nessa terra de gigantes
nunca mais a juventude foi uma propaganda de refrigerantes
nessa terra de gigantes
olho por olho dente por dente

nunca mais orei por meus poemas-mortos
e aqui jaz um poema delirante

Poemorto

Lamento informar que, na madrugada deste domingo, faleceu Poema S.A. de Falência Múltipla das Rimas em decorrência da Síndrome da Imunodeficiência de Versos Não-Adquiridos. O velório acontece na Academia dos Poemas Mortos.

14.1.19

poemas à espera de notas musicais

escrevo poemas para que eles ganhem o mundo
como filhos criados soltos

alguns nascem vibrantes
outros natimortos

alguns nascem como se o cordão umbilical
estivesse preso à garganta
outros suspiram intensamente

alguns são de parto normal
outros arrancados à fórceps

muitos deles berram
outros gemem

alguns suplicam
outros são mera súplica

alguns são poemas adestrados
outros revoltos

alguns mamulengos
outros miseráveis

mas, o que todos desejam
é poder viralizar em notas musicais
como os haicais
do Leminski

toda mentira é verdade

tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
minto
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéoquesinto
minto
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéomeugrito
minto
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéogemido
minto
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoévaidade
minto
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoéverdade
tudooqueeuescrevoétempestade
minto
todamentiraviraverdade
todamentiraviraverdade
todamentiraviraverdade
todamentiraviraverdade
todamentiraėverdade
minto

19.12.18

Patrão


Patrão
Frederico Linho
(para Bituca)

Não quero dormir esta noite
Não quero acordar e ver a cara do meu patrão
Prefiro o sono dos justos
E sonhar com a liberdade como um clarão

Não quero ouvir um boçal dizer
Que é duro ser patrão neste país
Quero acordar tarde
E viver este sonho por um triz

Quero dormir e sonhar com a liberdade
“Quero os meninos e o povo no poder”
Quero que digam que não tenho idade
Que meus sonhos são pueris

Quero acordar agora mesmo, dessa realidade infeliz
Quero casa, pão, solidariedade
Vou escrever essas palavras por todo o chão
Quero ver brotar esse sonho, como planta e raiz

7.12.18

Guernica Retirante

sou todo Guernica
uma guerra civil em ebulição
sou pedaços de gente
espalhados pelo chão

sou todo Os Retirantes
a seca que assola minha compaixão
sou o menino esquálido
que mendiga por um pão

sou Picasso, Portinari
sou uma tela encravada
no interior de uma gestação

sou o germe que alumia
sou a boca escarrada
sou o sentimento do mundo

sou essas duas telas
uma barriga d'água
uma bomba que silencia
a indústria da seca que mata

sou cinzento
meio ocre
agridoce
e ser nada disso
é o que me resta
[ser]