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5.9.20

Menino

 Não tenho tempo para agruras

Nem para subjetividades


O menino pobre que puxa a carroça

Grita no meu pé de ouvido


Sigo descalço, humilde

Não sinto as trepidações do asfalto


Não sinto o cheiro ocre da latrina

Nem o gosto da miséria


O menino pobre que puxa a carroça

Vem puxar meu pé à noite


Não deixa que eu assista à minha série favorita

Sussurra que a vida não é ficção

Missa do Galo

 Para onde vão os poemas?

Por quem os sinos dobram?

Por que a lápide está em branco?

Por que as beatas não estão rezando?


Não são perguntas

São retóricas

São resumos e histórias

São sentimentos histéricos

que batem à porta ao som da meia noite

Nasci

 Eu nasci para ser poeta

Morrer de fome pelos meus escritos

Morrer de amores pelas minhas dores


Eu nasci para ser poeta

Meia vida de inspiração

Meia dúzia de indignação


Eu nasci para ser poeta

Meia vida afinando letras

Meia vida tocando versos desafinados


Eu não nasci

Eu pari um poema

e abortei palavras

30.8.20

Não é mais Merthiolate

Eu não sou mais um garoto dos anos 80

Não bebo mais por esporte

Não cruzo mais a Epitácio Pessoa

Causando tormenta

 

Eu não sou mais meu próprio líder

Eu não transito mais na infinita Highway

Eu não uso óculos

E as meninas do Leblon olham pra mim

 

Eu não sou inútil

Mas continuo sem saber votar para presidente

Meu pulso não pulsa

E não sei mais falar em Õ Blésq Blom

 

Cadê o feliz aniversário

E os velhos da cidade?

Não tenho mais fixação por nada

Nem tenho mais sonhos (não vou te contar)

 

Não vejo mais miséria em qualquer parte

Nem as riquezas indiferentes

Deixei de amar os Beatles e os Rolling Stones

(E o Papa não é mais pop)

 

Kafka não quer mais ficar comigo

Nem encontro mais baratas na cozinha

Não tenho mais os discos do Sex Pistols

E agora sou amigo do Rei

 

 

Eu só quero mandar flores para o delegado

E perguntar Quem é você?

Nada mais do (Anjo) Gabriel

E a felicidade de matar o presidente

 

Não quero mais jogar polo aquático na cama

Usar cobertores como lençóis

Não quero mais comer as calcinhas bélicas da Kátia Flávia

Para não explodir o exocet e devastar os peixes voadores

 

Não puxo mais as barbas de Deus

Nem mando beijos pelo ar

Não cavalgo mais no meus desatinos

Muitos menos carrego balões pelo mar

 

Eu não sou mais um garoto latino-americano

Agora sou fã do vermelho, branco e azul

Não toco mais o blues do Baader-Meinhof

E não leio mais as Veias Abertas da América (do Sul)

29.8.20

Quarentena

Circulo entre as quatro paredes do meu metro quadrado

O quarto de Van Gogh e suas proporções

A cela de Mandela e sua solidão


Tenho febre de liberdade

Tenho cores acinzentadas

Tenho o cheiro de uma solitária


O sol queima o black out que protege as manhãs

O café quente anuncia mais uma rotação do eixo central

Os livros empilhados são fiéis companheiros


Eu não uso black tie

Eu não rogo a deus uma prece

Eu não tenho mais um inimigo que se preze


A vida não é mais uma mistificação

Eu não sangro mais quando canto

Eu não sou mais um herói da resistência

Eu não sou mais meu próprio líder

Eu não sou mais um operário em construção


Eu sou apenas alguns metros quadrados

Cercado pelos meus restos mortais

9.7.20

Mojar


Sinto-me como uma vaca amojada
Desconfiada da presença inumana daqueles que se apropriarão das minhas tetas

Sinto-me no abatedouro
Encurralada, prestes a doar carne para um frigorífico do tráfico negreiro

Leite e carne exploradas
Na minha pele malhada
Leite e carne exploradas
Ante meu olhar desconfiado
Leite e carne exploradas
No sumidouro desse vale infértil

Leite e carne baratas
Vejo o mundo por frestas
Leite e carne baratas
Olho desconfiada para meus algozes
Leite e carne baratas para alimentar quem gera fome

30.5.20

EU NÃO CONSIGO ACREDITAR...


Para George


Um emprego que se foi na pandemia

- eu não consigo respirar...

Um pai de família procurando comida

- eu não consigo respirar...

Uma nota de 20 dólares

- eu não consigo respirar...

Uma ligação para a polícia

- eu não consigo respirar...

Uma imobilização desmedida

- eu não consigo respirar...

Um homem pedindo pela mãe

- eu não consigo respirar...

A força bruta do extermínio da população negra

- eu não consigo respirar...

A pena de morte institucionalizada

- eu não consigo respirar...

Mais uma vida brutalmente ceifada

- eu não consigo acreditar.

22.5.20

Perguntas de uma criança de 9 anos


Pai, para que um prédio tão grande?
Porque a Justiça exagera...

Pai, por que aquele homem atirou em Lennon?
Porque a maldade existe...

Pai, e aquele cogumelo explosivo matou crianças?
Crianças, mulheres, homens, idosos e inocentes...

Pai, quem ganhou a Guerra Mundial?
Os soldados mortos perderam...

Pai, as pessoas moram naqueles barracos?
Sobrevivem...

Pai, é verdade que aquelas crianças não comeram hoje?
E nossa mesa está farta...

Pai, aqueles trabalhadores são explorados?
Todos os dias e de forma natural...

Pai, e aquelas roupas de Ghandi?
Representam a resistência...

Pai, tudo isso tem cura?
Só não há cura para a dor das minhas respostas...

Carta para Theo


Amado T.,

Parece-me que os desdobramentos dos meus atos ficarão marcados para sempre
A realidade enclausurada, as pernas encurtadas e a falta de sol indicam que,
mesmo com o retorno da normalidade, não conseguirei recompor o que foi perdido

Em resumo, mutilei uma orelha surda
Os girassóis murcharão no vaso amarelo
O ceifador continuará solitário e desconhecido
A bala teimará em não sair do meu corpo

Continuo assintomático com a venda de apenas um quadro em vida
Nem febre, nem dor, nem ganho
Tudo isso vai passar
Inclusive eu

Com amor,
V.G.

4.5.20

Fatos

Quando questionado pelo professor universitário perseguido e demitido
o presidente ditador respondeu:
Vá a merda!

Quando questionado sobre os mortos do vírus avassalador
o presidente saudoso dos generais respondeu:
E daí?

Quando perguntado sobre o povo
o presidente ditador respondeu:
Prefiro o cheiro dos cavalos

Quando perguntado sobre a vida do povo
o presidente saudoso dos generais respondeu:
Prefiro a economia

Cavalos, ditadores, generais, economia

Tudo isso cheira mal

Basta o povo apurar seu olfato

Cavalos, ditadores, generais, economia

Tudo isso cheira mal

Basta o povo não tolerar a distorção dos fatos

Imortais

A estante de livros desabou
Nem Sartre segurou
Nem Virginia Woolf evitou Newton

Imiscíveis, autores foram abaixo
Numa velocidade estonteante
Não restou livro sobre livro

Clarice assustada
Gabriel não teve tempo de reação
Drummond despertou de um longo sono

Imortais meus autores preferidos
vieram abaixo

Imorredouros safaram-se sem muitos traumas
Uma ou outra página amassada
Nada mais

Já recompostos, prontos para leitores ávidos