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31.1.11

Abri-dor (II)

Minha alma enlatada
Necessita de um abri-dor
Para expor as veleidades
Imersas em vaidades
Ante aos apelos da carne
Abre dor
Que não cessa
Serra dor que me consome
Em alturas inimagináveis
Atravessa a Borborema
Sobe desce
Em esplendor

Olhinhos azuis (II)


Estes teus olhinhos azuis
Transparentes
Transportam uma paz infinita
Que há muito não me cabia
Este teu semblante cor de calma
Diz tudo que eu nunca imaginaria

Olhinhos azuis


Estes teus olhinhos azuis [temporários?]
Repovoam minha existência
Iluminam em clarões
Esta estrada e permanência
Deste mundo tão escuro

Este teu olhar de paz
E tua pele alva
Certificam que é preciso
Acreditar que o mundo não volta atrás
E a esperança cresce em mudas
Que germinam barulhentas
Rasgando céu afora
Todos os ares repletos
De tintas barrentas

Abri-dor (I)

Engulo tuas palavras indigestas
Respiro tuas letras mortas
Enterradas em papel de cetim
Não chá de boldo
Que cure essa azia de ler teus
Manifestos
Não há formas comestíveis
Para tuas teses horrendas

A vida pregou peças
Embustes e enlatados
E agora não consigo
Encontrar o abri-dor
Das latas encasteladas
Das nossas quimeras
Queimadas em panelas finas
Mal passadas

16.1.11

“O Povo chegou ao poder”

“O Povo chegou ao poder”
A tropa de choque em comemoração
Lançou spray de pimenta
Brindou o Povo com safanão
Cobriu o céu com balas, azul rebenta
“O Povo chegou ao poder”
A Guerrilha Cultural em comemoração
Ofertou o circo em cada praça
Esqueceu-se de lançar migalhas de pão [duro]
E deixou todos em estado de graça

Nossas almas parecem não ter mais
Dor nelas
Se queira ao menos
Ver os mar secar
Lá em Marrocos
Em toda esquina
É fra(in)tricídio
Transformou a luta histórica
Em carguinhos
Fez vencer as lá cerdas
Adormecidas da Arena
Cunhou no Povo a marca
Indelével
Da pisada do choque
Fez vencer o sindicato pelego
Dando ordens ao iMPerialism
“O Povo chegou ao poder”
Os empresários e sua máfia
Rezam missa ao lado
Da milícia paramilitar
Rezam a homilia com muito
(C)aldo e dizem: Povo
Go TTo home!
Para alguns
A massa ficou rica / ardor fervoroso
Mas a realidade diz o contrário
E só arde quando lembro
Que “quase acreditei na sua promessa...”

Mas vão dizer que meu peito doído
É apenas bir(r)a
Não foi exatamente a tropa do “Povo”
Que estuprou [violentamente] meus desejos
Dilacerou em porrete
Deixou escurinho o chefe de gabinete
A tropa do “Povo”
Pisou os girassóis
Matou as urquidéas
Escancarou as falácias midiáticas

5.1.11

Roupa suja, sem metáforas!

O operador da máquina de lavar anuncia: o sistema entrou em colapso - fui vencido pela roupa suja.

4.1.11

Ao carnívoro


Ao cadáver insepulto
Ofertado a minha mesa
Vida obliterada

Alimenta os perniciosos desejos
Do antropocentrismo

Repete a cantilena desgastada

Afirma peremptoriamente
Ser carnívoro [e talvez ignóbil]

2.1.11

Causa Própria


Pare de sair às ruas
Agora você tem um filho
Pare de se expor
Nesses trajes beligerantes
Agora você tem um filho
Pare de gritar, berrar
Você já passou dos trinta
E agora você tem um filho
Pare de lutar por toda vida
Pois agora você tem um filho
Cada passo dado
Pense no seu filho
Cada recuo realizado
Pense no seu filho

Recados intermitentes
Resposta unificada:

- Não milito em causa própria, gero desejos para as gerações futuras – e agora, mais que nunca!

Demiurgo


Antes demiurgo
Morava no panteão da coerência
Hoje queimo no encontro [furtivo]
Com minha consciência