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20.4.17

Vasto Mundo

Meu pai com Alzheimer
No alento da sua lucidez
Ao ver as cenas bélicas na TV:

Meu filho, ao longo dos meus 78 anos
Não houve um dia em que o mundo
não estivesse em guerra

Que o digam pai
As crianças em carne viva
Bombardeadas
Queimadas com armas químicas
O menino refugiado afogado
As cenas tristes em preto e branco
A Rosa de Hiroshima

O mundo esquálido
Sem rima
O mundo beligerante de Bush Bush Bush
E seus fanáticos sucessores
Bombas incendiando caveiras
Bush Bush Bush
Bombas promovendo coveiros
Bush Bush Bush
Não há saídas de emergência
Apenas bombas
Bush Bush Bush Bush

Entre os escombros
À direita
Urnas conservadoras
Explicações rarefeitas
Silogismos carentes de causa-efeito

Nas cabeças ocas
Pululam soluções rápidas
Bush Bush Bush
E assim se esvai a humanidade...

5.4.17

Vida Líquida

Para Baumann

A informação está muito diluída
(intervalos são mais ricos que o noticiário)

O leite está muito diluído
(coloquem água, já diziam os milicos de outrora)

A vida está muito diluída
Escorre fluída
facilmente pelo ralo

30.1.17

Tropicana

Hotel Tropicana

Aqui almocei com meus avós, pais, irmã, tios e primos na década de 1980.

Por ironia do destino, 30 anos depois, adentrei no antigo hotel Tropicana já como Ocupação do Tijolonho Vermelho.

 Convivi com algumas famílias, brinquei com as crianças, formamos até uma turma de alfabetização de Jovens e Adultos.

Vi cenas impactantes na época das chuvas. O cheiro da falta de condições sanitárias vai ficar comigo para o resto da vida. Assim como a luta de um povo por direitos básicos.

 O Tijolinho Vermelho foi a maior lição que já tive na vida, a maior escola e o maior aprendizado.

Nunca vou esquecer das crianças brincando com meu filho, do cuidado e do carinho que alguns tinham com o "galeguinho".

Espero que meu filho também nunca esqueça essa experiência de vida e nunca naturalize tamanho descaso com o povo.

Tijolinho Vermelho / Hotel Tropicana

Nesta cadeira aparentemente vazia
Muitas pessoas escreveram sua história
Elas nunca esperaram um milagre

Cansadas de ficar sentadas
Foram à luta
Sofreram com as chuvas
Sofreram sem uma ducha quente
Sem condições sanitárias

Esta cadeira vazia
Conta muitas histórias
De muitos meninos
e meninas
Que brincavam no Ponto Cem Réis
No Pavilhão do Chá
Na Praça dos Três Poderes

Podres Poderes
Que não querem dar dignidade às pessoas
famintas

Poderes de vestes sujas
Que nunca precisaram jogar suas fezes
Do alto do Hotel Tropicana
Pela simples falta de um vaso sanitário

Podres Poderes
Jogam suas excrementos na cara do povo

Para além da soberba do Tribunal de Justiça
Do Palácio do Governo
Ou da Assembleia Legislativa
Homens e mulheres teimam em escrever sua história

Nesta cadeira sentaram iletrados
Mais dignos do que àqueles sentados nas cadeiras imundas da Praça dos Três Poderes

22.1.17

Patético

Uso desculpas esfarrapadas
O tempo todo
Nos meus deslizes
Nos meus equívocos

Até nos sonhos que invoco

As desculpas e meus farrapos
São traços
São desvios de conduta

São fugas
Para tentar apagar as minhas rugas

São meus escritos sem métrica
São frases sem pé nem cabeça
São desvios éticos

Uso desculpas esfarrapadas por tudo
Até por motivos patéticos

16.1.17

Insônia literária


Meia noite. É preciso escrever.
Mudo o horário. Mudo o computador. Mudo a posição.
O texto continua mudo.

Lá fora cobradores rangem os dentes. São prazos implacáveis alvoroçando minha falta de inspiração.

Minha mãe inicia a sinfonia dos pires e talheres às cinco da manhã. Anuncia o café forte e o alarido diuturno.
São vozes que cercam e agonizam o teclado até o por do dia.


Procuro refúgios, Thomas Mann,
qualquer mágica que digite freneticamente todo o texto que está contido na cabeça.

São apenas velhos truques e desejos frenéticos. Parar tudo e ler um romance. Ou uma tragédia grega.

Outrora marco um mergulho no mar. Catatonia vespertina. Delírios corriqueiros na Praia de Coqueirinho.

Os trinta dias correram pelo ralo. A ampulheta do tempo está cheia de ar...

Na linha de chegada estão todos. Maridos, mulheres, filhos, minha mãe com o pires na mão, meu pai na torcida por qualquer resultado, o futuro e o carnaval. O verdugo de minha sorte sorri para mim.

Meio dia. O texto ainda me espera neste quarto quente e repleto de passado. Parece que todos me olham, esperam por mim. Os doutores, os sobrinhos, desconhecidos de Shanghai, quase toda a família. O mundo inteiro está aqui à espera das duzentas páginas inexistentes e retorquidas.

O texto sabe imolar o sujeito. Sacrifica inocentes. Refluxos e mais refluxos, arrependimentos, lembranças das rotas alteradas, caminhos de fuga.

O texto não espera poemas, não coaduna com correntes literárias, não aceita jocosidades.
Ao contrário, é burocrático, infame, prolixo.


Assassino de poetas primários lacônicos, o texto há de cumprir o seu ideal.

2.1.17

2017

Em ano ímpar
pares tudo

Gula

(para o poeta sujo)

Em casa de Ferreira
Espeto de poema

4.12.16

Seca

Oremos
Pela indústria da seca
em pleno século XXI

Pelo céu escarlate
Pela cachorra Baleia
que não chora nem late

Oremos
Como os gravetos secos
de olhos fundos
e chão ardente

Brindemos
com panos quentes
pela falta de tudo
com aguardente

Oremos
Por uma saída
Pela chuva rala
Pela intervenção divina

Oremos
Para que todos aqueles indignados
Com a seca alheia
Desçam de seus palanques
E venham sentir esse calor na veia

30.10.16

Provocações



Para Juljan Palmeira

À sombra de uma palmeira
Não descansam mentes perigosas
Subversivos sonhos
Microfones voadores
amplificando quimeras laboriosas

Metralhadoras poéticas
Agitam sábados subversivos
Encontro marcado
com Cabras Marcados para viver

Microfones vão voar
Disparos cíclicos
Serão nosso dia D
Serão cabeças no tempo
Subvertendo os segundos
Amplificando a autonomia intelectual

Não queremos respostas,
apenas provocações para fumar
Numa noite quente de luar...


14.10.16

My little Blue Girl

Enquanto escuto a Janis
Lembro do tempo que vivia nas nuvens
Lembro do Vietnã
E dos irmãos que lá ficaram

Lembro das metanarrativas
Tempo que sabíamos quem seguir
Lembro dos cigarros que nunca fumei
Dos canais de TV que não existiam
E de alguns amigos de infância
Que até então não eram fascistas

Lembro dos domingos de praia com meus pais
Ou das tardes de cachorro quente
Numa lanchonete de esquina em Jaguaribe

Ao ouvir a Janis
Lembro como ela era feliz
Como ela era livre
feito aquelas tardes de domingo

Ouço a Janis para me libertar
Tal qual nos tempos em que não fumei
Tal qual nos tempos que eu só precisava de um telefone de linha
E uma menina magricela para ouvir por horas

Ouço a Janis para lembrar o quanto era bom
estar apaixonado por meia dúzia de amigos aventureiros

Ouço a Janis para celebrar o tempo
O tempo que desejei ser hippie
Andar estrada afora sem a menor intenção de um dia voltar para os cachorros quentes de domingo

E quando a música da Janis terminar
Estarei de volta ao tempo da subjetividade
Às músicas de baixo calão
E a falta constante de créditos para poder ligar para aquela amiga magrela

Germe

Existe um germe dentro de mim
Existe um germe em plena lua cheia
Cheio de luas para orbitar

Este germe geme
Come ovo com clara e gema
Esse germe é meu tema
cotidiano

Todos os dias do ano

Este germe sou eu
É meu germe autofágico
É meu destino trágico

Este germe é o meu arrependimento
Guardado durante tempos
No meu apartamento
Em caixas verdes de departamento

Este germe é como um bicho geográfico
Que me atravessa de norte a sul
Comendo minha carne

De um cheiro atávico
Este germe me faz lembrar tão bem
Dos bons tempos de infância
Da luta de meu avô por um ramo de trem

Este germe sou eu
Ele repete
Como uma cantilena
Doce e fria

Este germe geme treme
Escreve em letras garrafais
Como se fosse tatuagem
Como se fosse o próprio Caifás

Este germe é minha coceira intermitente
Faz de tudo para estar presente
Por mais eu que tente e tente e tente e tente

Por mais que eu morda
por mais que eu mostre meus dentes
Este germe implantando
Será lavoura e colheita
Neste meu deserto tão árido

Um dia este germe
Descansará em paz
Numa saída sem muito alarido
Não terá mais quem sugar
Nem feriados chuvosos para comemorar
Nem tão pouco lágrimas para enxugar

25.9.16

Poema morto

Escrever (tentativas) poéticas
É como mergulhar num pântano
artificial

Não corto os pulsos como o Veríssimo
Mas desejo, caro leitor
que você imagine que o autor morreu

Atolou-se nesse lodo poético movediço
Morreu sem ar
sem luz
sem isso

Morto, caro leitor
Não posso responder sobre o que escrevi
sobre quem escrevi
ou como estou me sentindo

Morri com o poema
Morri com as tentativas
Agora ele fede
Está em decomposição

Cabe a você, caro leitor
usar a imaginação
E quem sabe mantê-lo dessepulto

Ensaio sobre minha cegueira

Precisei ensaiar minha cegueira
Para poder enxergar melhor

Precisei ensaiar minha cegueira
Para poder cantar a vida melhor

Precisei ficar cego
Para compreender a cegueira do outro

Precisei estar cego
Para ver minha própria cegueira

Minha cegueira é minha condição de visão
É quase gagueira
No parlamento imundo

Minha cegueira é minha condição de estar no mundo
É poder enxergar os limites do outro

Estou cego
nada sinto
E ao mesmo tempo compreendo a visão
E sei porque minto

Estou cego e corro
E todos que enxergam
param
Doentes de poliomielite

Estou cego
E tantos que enxergam
Vêem só o pensamento da elite

Minha cegueira é como um parto
Ante o aborto das minhas convicções
soterradas num pacto

Estou
cego
surdo
mundo

E a toda hora mudo o canal
para nada ver além do ego

23.9.16

Etc

Não preciso mais ouvir músicas deprimentes
Para escrever meu poemas e sentir as vilanias
Basta ligar a TV e ver os políticos que mentem
Basta ir à feira ver os preços e orar para que não aumentem

Não preciso querer compor
deprimente
Já basta o canal que não abre a mente
Já basta a geladeira vazia
comumente
Já basta ler o jornal e ver
como mente

Já não preciso forçar a barra da dor deprimente
Basta ver o consumo rasteiro das ideias
intermitentes
Basta ver a briga interna
dos meus entes

Já não preciso saber quem sou
ou quantos dentes
Parecem visões prementes

Visões emparelhadas de um futuro pouco decente

et ceteramente

15.9.16

eu, vezes nada

Eu, trambolho de gente
Deixo essa última carta
Escrita com o dente
trincado de ódio

Eu, trambolho de gente
Filho do Augusto e do amoníaco
Sinto cheiro de enxofre
Nas cadeiras de chefes demoníacos

Eu, trambolho de gente
Cego de um olho
Míope de outro
Só enxergo meias verdades

Eu, trambolho de gente
Sou maltrapilho
Indecente
Visconde feito de milho

Eu, trambolho de gente
Sou uma rima no deserto
Uma lágrima no oceano
Ninguém de fato, decerto

Eu, trambolho
Às vezes gente
Às vezes ato
Às vezes nada
vezes nada

29.8.16

Heroína

Heroína

(para Janis)

Nunca usei heroína
Nunca quis ser herói
Ou cowboy
Neste filme sem mocinho
que a vida predestina

Paguei a conta com o preço alto da coerência
Em meio a tanta displicência
Daqueles que um dia juraram lealdade

Os meninos da rua continuam com baleadeiras
Mesmo que já não tenham mais idade
para tanto

Subi e desci ladeiras
Às vezes sóbrio
Às vezes reu
Nunca montado em pedestal de ouro
Sem pés alados a caminho do céu

Nunca usei heroína
Nunca corri o risco de não amanhecer
Aos vinte e sete
Num quarto triste de hotel

Nunca gritei para me mostrar
Ou desafinar
Meu grito era em dó maior
Era o grito do meu tempo
Para sustar os agentes laranjas
Colhidos nos pés podres de barro

Vai Janis
Atira para todos os lados

Tua voz e teus gritos
São balas de anis
Só perfuram carnes amargas
cheias de ardis

25.8.16

Canibais

Estou embrutecendo
Uma colônia se espalha ao meu lado
Vermes crescendo
Sem parar

Poemas não brotam mais
Nesse desaguadouro
De canibais

Sujeitos comem minha carne
Repelem meus livros
Queimam meu corpo que arde

Estou embrutecendo
Estou emudecendo
Estou descendo
ladeira abaixo

Sinais dos tempos
De silêncio e tecnologia
Sinais dos tempos
Ventos conservadores
Não alimentam a autofagia

Guitarras não reagem mais
Crianças não reagem mais
Meus sonhos não suspiram mais

E (quase) todos escondidos com medo
dos canibais

1.8.16

Aqui jaz

Já imaginei minhas cinzas jogadas ao mar
Nesse mar revolto
Nessa química perfeita
De ondas coloridas e paisagens resolutas

Já imaginei essa louca amálgama
De cinzas e sonhos
De derradeiros desejos

Essa enseada
O platô que anuncia a vida
O verde misturado ao azul
As rochas valentes

As ondas quebrando
O som da ressaca estridente

Não esqueçam
Exatamente neste ponto
Onde anunciam a jurema
Deixem minhas cinzas
(eu preferia a carne viva)
Alimentar essa última aventura extrema

23.7.16

Tudo

Eu já tentei de tudo

Tentei fazer omelete sem quebrar os ovos
Tentei construir parede sem tinta vermelha
Descansei no sétimo dia
Na sombra de uma rede

Enfrentei os sete mares
Descrevi vidas em xilogravura
E acabei fixo, numa moldura

Já tentei de tudo
Fiz da vida uma cozinha de forno a fogão
Fiz poupança, espada, lança e redenção

Eu pensei que éramos muitos
Nessa síndrome tecnológica da austeridade

Terminamos sós
Nus
Abatidos na tenra idade

19.7.16

(quase) todos os olhos

Para tom, Zé!


violência

Corro da violência
Das vicissitudes
Do sangue que corre em minhas veias

Corro da violência
Da falta de atitude
Das estatísticas
em larga escala

Larga minha mão
Beija minha boca
Sangra meu beiço robusto

Larga meu peito
Esfola meu busto
Me diz quanto vale
O custo
(Brasil)

Chega de violência
Chega mais violência
Chega de violetas
E roletas russas

Eu sou minha própria violência
Estilhaço pedaços de mim
Me engulo
Sou o verme do meu próprio cadáver

Lesto e seguro
Digo adeus na hora da chegada
E abro mão do meu sangue puro

16.7.16

Os dez últimos dias

Os dez últimos dias
E o som não mais principia
Sem tese, antítese ou síntese

Não há cura
Para uma doença de dez dias

Não há cura
Para longas passionais

Não há cura
Para lutas inglórias

Não há cura
Para vizinhos inescrupulosos

Não há cura
Para orquestras desafinadas

Não há cura
Para trabalhos vazios

Não há cura
Quando se quer apenas dez últimos dias

Não há cura

Não acuda

Não acura

Não cura

Não...

6.5.16

Oração

Desejo que você não se vá
Depois de um dia obscuro
Depois de ter que pular tanto muro
Desejo que você não se vá 

Depois de esbarrar com tantos empertigados
Depois de assistir tanta tevê vazia
De ter que conviver com essa azia
Por favor, não se vá 

Depois de olhar para o meu umbigo
E ver um sujeito ignóbil
E saber que é tão óbvio
Que sou tão egoísta quanto essa res publica

Você me responde com um tapa de luvas
Com uma clave de sol resplandecente
- Durma com a escuridão e com a sua visão turva

29.4.16

Contingência

Sou do tipo revolucionário
Que deserta da guerrilha rural
No primeiro sinal
De um amor beligerante
Que se encanta com os acordes doces

E não chego a endurecer
Só em pensar em perder a ternura
Num bravo amanhecer

Por esse motivo
Não me alistei
Preferi a reserva de contingência
Por um desejo furtivo

Preferi ficar quieto
Escutar tuas músicas
Teus acordes
E dormir apaixonado
Eternamente,
no teu colo esplêndido

28.4.16

Nau

Se um mar revolto Agita teu coração Atormenta rotas e a navegação Toma uma dose de uma voz doce
Que intensiona, simplesmente, aplacar a falta que faz você 

Conto as horas para chegar num porto seguro Conto as horas para ouvir, de longe, sinalizadores afinando o tom Que me torna mais maduro

É mais que preciso, esse doce canto Quase pueril, cheirando a tenra idade Em qualquer canto  
Te escuto e esqueço a maturidade
Lágrimas rolam, descem embarcações Tecem desejos, emoções Traçam caminhos ao longo dos embarques Dessa viagem melódica repleta de talvez

Como eu queria Embrulhar tua voz em papel de jornal Carregar comigo em cada partida Tuas músicas, tipografadas Como uma tatuagem Em todas as viagens na minha nau

26.2.16

Novidade

Depois da febre dos 40
Ando repetitivo demais

Sem novas palavras
Sem novos temperos

Poemas com o mesmo fim
Caldo de feijão preto com o mesmo sabor

Se ao menos soubesse fazer um tropeiro
Ou escrever romances sem fim

Até os cabelos brancos parecem iguais

Qual a novidade nos canais de TV?
Qual a novidade nos anais da história?
Qual a novidade da máquina de escrever?

A vitrola roda os mesmos discos de 1980
O noticiário estampa as mesmas manchetes de 70

Qual a novidade desses poemas sujos?
Qual a novidade do Cristo redentor?
Qual a novidade deste sistema predador?

João Pessoa não virou Paraíba
Goulart não foi assassinado
Getúlio não criou o Fundo de Garantia

Qual a novidade no Cine Banguê?
Qual a novidade na obra de Zé Lins?
Qual novidade vai me fazer feliz?!??!??!

25.2.16

Perdão

O teu pedir perdão
É um salto no infinito
do tempo
As mágoas, as contradições
As feridas abertas

O teu pedir perdão
É uma carta sem logradouro
Palavras que chegarão
No desaguadouro
da ilusão

Peço perdão por ti
E vou dormir em paz

24.1.16

Cabelos Brancos

Prefiro o som ardente dos gritos torturados
A esse silêncio profano da legalidade instituída

Prefiro a cadeira elétrica
o pau de arara
o verdugo encapuzado
À lerdeza infinita e deliberada do Tribunal de Justiça

Prefiro ser enterrado como suicida
A esperar pelo julgamento da minha causa

Prefiro as bombas em bancas de jornal
Do que esse imprensa comprada

Prefiro as barricadas, os molotovs
o manual do guerrilheiro urbano
a esses partidos de outubro

Mas, são tempos vindouros
que engoliram o tempo passado
É uma era do ouro
que se expande com crédito cidadão

O que estava expondo
agora camuflado
O que era violência
agora paz dos túmulos
O que era tortura
virou crise [ano que vem o país volta crescer]
O que era exploração
oportunidade
O que era rebelião
idiotice
O que era mínimo
salvação
Coisa do passado
anacronismo de cabelos brancos

E continuo escutando os Beatles numa vitrola de agulha
Datilografando poemas num máquina vermelha
Escovando os dentes com juá
E vou continuar me recusando a pintar os cabelos
mesmo que aqueles 21 anos ainda perdurem

Escaravelho

9.1.16

Feridas

Minhas feridas abertas
hoje demoram a cicatrizar

Antes fechavam em pouco tempo
gotas de mercúrio cromo e paciência

Mas não causam inveja às feridas internas
Centenárias, purulentas, viris e teimosas na cicatrização

3.11.15

Futebol

Fui dormir pensando na "voadora" que meu filho levou de uma outra criança.

Ernesto adora futebol, e mesmo numa pracinha, sem espaço para a prática futebolística, é inevitável improvisar travinhas e times. Sem conhecer ninguém, basta colocar sua surrada bola de vôlei de praia para correr praça a fora que começam a chegar os novos amigos interessados num joguinho de futebol com bolas e espaços inusitados.

Dois meninos se aproximaram, um pequeno demais para os cinco anos de Ernesto, outro grande demais. Com o pequenino ele brincou de ser o dono da bola, correr praça inteira e não perder o controle da brincadeira. Quando o menino mais velho entrou na roda foi com o sentimento do violento esporte bretão. Entradas maldosas, ar competitivo e jogadas agressivas, incompatíveis com a idade daqueles que só viam prazer naquela prática espontânea.

Eu deveria ter encerrado a brincadeira no primeiro round. Não o fiz, e as consequências foram a queda no chão duro, o arranhão e o choro.

É o futebol, desde a tenra idade, mostrando a rudeza das nossas relações sociais. 

25.10.15

Escrito denegrido

Hoje eu me sinto tão negro
Orgulho da cor, do nariz,
do tamanho do meu cabedal

Orgulho de compartilhar escritos
De me sentir Zumbi
na resistência à elite colonial branca

Hoje eu me sinto tão negro
Mesmo que a elite exponha suas propagandas arianas

Mesmo que digam que o meu é bom
Em detrimento a um cabelo que teimam adjetivar de ruim

Meus beiços, meus beijos
Meus sentimentos negros
Dos meus antepassados
Da minha bissavó que não foi capitã
de Areia

 

Para da Costa (ou Camarada Yuri)

Não para da Costa
Para costa antes do naufrágio
Tantos ratos neste porão
Tantos vazios nestas costas

Submersos nossos sentimentos
Não permitiremos que nos afoguem
Para a costa!

Homens e mulheres à vista
De longe em longe
Como em Terra dos Homens

Um diria veremos a costa
Límpida, fagueira e resplendente
Para isso é preciso repetir,
sempre e sempre:
Não para da Costa!

21.10.15

Professor Jó

Terça, três da madrugada. Acordo depois de um pesadelo. Uma sala de aula, alunos procurando intrigas e blasfêmias. Tentativas frequentes de estratégias para desestabilizar o professor. Conversas paralelas, caras e bocas. Tocaias para provocar o erro. Ar sarcástico, ironias, desamor.

Acordo ofegante e passo a escutar o alarme do relógio hora após hora, até as seis da manhã.

Começa o dia. Uma rotina que se prolonga por longos dezoito anos.

A última vivência, sempre taxo como a mais dolorosa experiência do magistério que enfrentei. Meus neurônios não suportam, fustigados pelo tempo.

Um equívoco qualquer é inevitável apesar das longas horas de preparação e leituras prévias.

O pesadelo era a antevisão, a aula a realidade.

Seres inacabados, de sentimentos inexplicáveis, transformam o déjà vu em tormenta concreta.

Próxima terça, enfrentarei um novo colisseu de leões sedentos que irão se revezar até dezembro - ou até eu parar de oferecer minha carne de Jó. 

16.10.15

GastroCultural

Serve rima
No almoço
Severina

Em terra de mudo

Olho para dentro
De olho no furacão
O olho da tempestade
Olha para mim
Com olhos de fúria

Não confundo alhos com bugalhos

Todos os olhos
Olham para mim

E enxergam muito bem

15.10.15

Ano tosco

Escorre pelo funil ano tosco
Enforca-te com tua própria gravata
Leva contigo uma lesão de menisco
O verdugo que te pariu
E as reminiscências que afligem minha cabeça

Oh ano tosco
Lembre-me de brindar o janeiro
De ludibriar teu sucessor
Para esquecer as sequelas passadas

Durma em paz ano tosco
Sem processos, joelhos, cartas passionais ou diretores infames

Anayde

Vim ao teu encontro apenas para dizer:

Não sintas culpa por essa carranca enterrada no centro da capital paraibana.

Já temos certeza que são esses restos mortais (liberais) que emperram toda e qualquer possibilidade desta terra do Norte encontrar o desenvolvimento.

Não foram tuas cartas, tua dor, tua paixão ou tua liberdade que entravaram o desiderato desse povo do Norte.

Esses ossos infrutíferos e essa história mal contada precisam ser cremadas e jogadas em alto mar!

Anayde, precisas contar tudo o que sabes. Precisas expurgar esse doce veneno, fazer explodir essa paixão pela vida, resplandecer esse tomar de conta do teu destino.

Livra-nos desse vermelho e preto.

Voo Pedagógico

Depois de quase vinte anos no magistério
Virei um professor rai-teque
Quase todos alunos passam a aula cabisbaixos
De olho no uatizape ou feicebuque

Quase todos nem na biblioteca foram
Pegar os livros que encomendei para a leitura coletiva

Quase todos acham por demais
Alguns exemplos que dou:
Nunca chegar atrasado
Nunca faltar
Sempre valorizar a hora-aula

Sou um professor moderno
Diálogos em círculo
Lutando contra o fim das metanarrativas
da teoria pós-moderna
[E dos bocejos discentes]

Parece que prego no deserto
Parece que o desapego chegou aos livros, ao papel, à escrita cuneiforme

Sou um professor moderno
Compro os jornais dominicais para ler com meu alunos
Que parecem estranhar aquele papel cinza
Em forma de tablóide

Durante anos vi professores cansados
Cabelos pretos ou grisalhos

Jurei nunca me abater

Mas, às vezes, fico com a sensação
De ter sido abatido
Em pleno voo pedagógico

14.10.15

Gelatina Geral

Eu pensava que dentro de mim
Havia um Sartre
Sem idade, sem razão, sem Simone

Descobri que dentro de mim
Habita uma gelatina
Sem sabor, sem cor
Insípida, inodora, estúpida

Dentro de mim
Apenas escarlatina
E um jogo de sete erros

6.10.15

Sobrevivência

Falo, falo, falo
Repito
Entre as enormes dimensões de teu ego

Tento esquecer as conversas truncadas
As informações desconexas
O amor demodê
As usurpações passadas

Resta-me essa fala, calada
Falo, falo, falo
O meu silêncio em ação

Para um observador desatento
Pura arrogância, prepotência
Sexismo exacerbado

Para mim desconjuntura
Dedo em riste
Sobrevivência

29.7.15

Mi Menor

Amanheceu liberto
Livre das amarras
Da produção fabril
Da exploração comercial

Amanheceu liberto
Sem ponto
Sem dores
Sem mais valores

Escolheu a liberdade do sistema
A liberdade de passar fome
A liberdade de estar desempregado
De não mais gerar riqueza

Não mais valor
Não mais alienação

Escolheu inclusive o tempo de partir
Antes de esquecer de si
Neste longo inverno
Em mi menor

25.6.15

Escolas

Esses meninos enjaulados
Enclausurados em meio turno
Sem direito ao banho de sol

Como vou dizer aos alunos
que não gritem
Se quero que eles abram o berreiro

Como vou dizer aos alunos
que não batam
Se precisam se proteger da polícia

Como vou dizer aos alunos
que não quebrem essas algemas
da pobreza, da indiferença e da miséria
humana

Como vou dizer aos alunos
- Chega de violência!
Se o prefeito, o governador, o juiz e o policial
agem em nome de um Estado truculento

Meus alunos têm cáries, manchas na pele, fome, sabem muito bem onde dorme o inimigo e quem são os sujeitos omissos.

Por isso, as escolas têm grades.

Vestibular

Escrevo porque sonho ver poemas
se transformarem em alternativas no vestibular

Caso não entendas o poema
marque a letra c
Já dizia a bizurada

Quero, com gosto, responder a questão
sem ter acesso ao gabarito
Ter a certeza que não me compreendo
ao errar tão simples enunciado

Tempos sombrios, poemas inúteis viram questões de múltipla escolha

E a vida segue sem muitas escolhas

Acorde

Eu já sabia, eu já sabia
Não adiantaria voltar a terra onde foi enterrado meu umbigo
Isso não me fazeria viver
Isso não me fazeria lutar

Continuo à beira desta cova rasa
De prenome solidão
Aqui jaz

Guitarra, granada, canhão
Lembro que desde menino
Tento tocar Vandré no violão

E não consigo passar de três acordes
E o mundo [quase] todo parece adormecido

Acorde, acorde, acorde!

40

Sempre corri contra o tempo
Desejei mil revoluções por minuto
Pois sabia que um dia faria quarenta

Hoje, velho e cansado, leio o jornal de pantufas
Cada página do tabloide escorre sangue da violência doméstica
que domestica lares e enclausura sujeitos

Mesmo soterrado pelo alzheimer
Não esqueço do quanto era bom
imaginar a bancarrota do sistema

Hoje sou um resto do nada
Uma crônica do sucesso às avessas
O sonho de um pobreza desvairada
Um descontrole inepto das sinapses nervosas

Às vezes surto, acordo revolucionário
Basta anoitecer para as estrelas iluminarem as limitações
Não mais verei transformações radicais

Às vezes surto, acredito piamente nas multidões
Basta amanhecer para acordar isolado
triste, desolado

Nem o chuveiro elétrico dou conta
muito menos James Joyce
Cada página que leio, um vazio
Cada página da vida, revirada

O medo da morte transfigura-se
Torna-se doce deleite
A vida apenas um tempo
passado

18.6.15

Rico

Quero morrer rico
Soterrado pelas miudezas
Ou afogado no pacífico

Quero morrer rico
Enlaçado pelo pescoço
Em carne e osso

Quero morrer rico
milionário
Um milhão de amigos
E sem um tostão no sistema bancário

5.6.15

Ímpar

Mês seis
Mayday
Dois mil e quinze perdendo força
Na verdade o problema deve ser ímpar  

4.6.15

Relâmpago

Foi um professor relâmpago. Chegou sorrateiro na escola e sumiu num piscar de olhos. Começou o ano, ministrou poucas aulas, enfrentou uma greve, retornou para a sala de aula e desapareceu. Alguns dizem que foi por causa do joelho que, de fato, torceu durante uma das aulas práticas. Rumores afirmam que seu nome estava num dossiê elaborado pela secretaria de educação. Falam que um tal conselho desejava sua demissão, já que ele se recusava a pagar a anuidade. As más línguas reiteram que o presidente pelego do sindicato estava pedindo sua cabeça numa bandeja de prata. Relatam também que a esquerda do magistério prefereria ele longe das disputas internas para não embolar as já tumultuadas eleições sindicais. Outros encontraram o caderno de trabalho com rabiscos de poemas e músicas melosas da Legião, imaginaram uma depressão de origem passional que afetou sua capacidade laboral. Falaram até em partido, guerrilha, revolução e terrorismo, mas não entendemos muito bem. Nunca saberemos, simplesmente se foi e nunca mais apareceu. Foi apenas mais um professor...

Silêncio

És um silêncio lindo

Mudo de ares
Pinto aquarelas
Digo besteiras

Teu cabelo combina com a primavera
Sentinela bastarda da efusão de cores
Vermelho, verde, azul, amarelo
Misturo tudo em paletas
Rompo a lógica do arco íris
Bem mais que sete cores

Teu silêncio é um sopro de beleza
Tua cor alva
Teus olhos vivos
A voz adormecida e adocicada

Faço esforços para fluir conversas
Para que?
Basta o silêncio, o cheiro, o cio
E por último uma taça de lágrimas
cheia de saudades

1.6.15

Labirinto




 “- Carajo! – suspirou. – Como vou sair desse labirinto?”
(O general em seu labirinto. Gabriel Garcia Márquez.)

Em cada quadra um relógio
Cada qual com sua hora
seu ponteiro, sua mentira

A Rua Rodrigues de Aquino parece interminável
Parece circular com seus labirintos políticos
Cada quadra um fim
e um recomeço

O carteiro se perdeu
O rapaz que lava carro ficou estático
O homem do fiteiro forma opiniões
A porta de vidro antevê o presente
A passeata segue lúgubre

Carros e mais carros anunciam que todos têm pressa
Inclusive a violência que tocou a campainha às nove da manhã
Militantes com suas bandeiras tocam tambores do dissabor
desafinados pela ordem corrosiva das alianças esdrúxulas

Melhor era ter nascido anos atrás
Clandestino nas células da resistência
Entregue ao tempo e à luta
Distante deste labirinto temporal

14.5.15

Mimo

Sumimos neste quadro grotesco
De janelas cerradas
De grades e cercas
De gente enclausurada

Para tanto, só mimos

Sobrevivido

Tenho sobrevivido aos abalos vívidos
Dos tremores sísmicos
Da escala ríspida

Tenho sobrevivido sem bares nem ares
Aos apelos do iogurte de sabor fenomenal
Em potes de uma vida insossa

Tenho sobrevivido aos rumores enlatados
Dos amores infiltrados
Com prazos recursais indeferidos

Tenho sobrevivido ao tempo
Aos espasmos midiáticos, à crítica teatral
As peças pregadas pela vida

Tenho sobrevivido especialmente
A esses restos de homens
A esses pratos de ontem
A esse ofício sem rumo
A essa noite sem fim

5.5.15

Sobrevivência escolar

Não era um cavaleiro diletante
Era apenas meu aluno, um cavalo e uma carroça
cheia de papelão
O ganha pão de um menino transformado em homem

Era apenas um aluno, distorção idade-ano
estudava no quarto ano fundamental

Era apenas um aluno
quinze anos
Ensinando o fundamental da vida
[a sobrevivência]
Na falta da infância
das letras
da família
da comida

Seguia roto nos descaminhos da vida
Gritou por mim: - professor!
Lembrei do dia em que pediu para repetir o suco
Poucas goiabas naquela merenda esquálida
E teve como resposta uma negativa seca
Tão esvaziada quanto seu estômago

Era mais um aluno que ensaiava durante as aulas
Capoeira, mata-leão, golpes afins
Com o objetivo de combater o aparelho repressivo

Não me caberia repreendê-lo
tornei-me seu discípulo
nesse árdua batalha pela sobrevivência


18.4.15

Gole

Vou lutar até o gim
Digo
Até o fim

Ou melhor
Até o último gole

Desta garrafa de mim 

4.4.15

Exoneração

Não bebo
Não fumo
Só transo com camisinha do SUS
No almoço, ovo com cuscuz
[orgânico]

Carro velho quitado
Casa do Vovô
Com teto, telhado e sem dívidas

Não paro em bares
Mergulho de graça
No profundo azul do mar

Tuas ameaças não abalam
Meus ideais
Não sofro do fetiche da mercadoria

"Exonere-me covarde
Você vai demitir apenas um homem!"