20.4.17
Vasto Mundo
No alento da sua lucidez
Ao ver as cenas bélicas na TV:
Meu filho, ao longo dos meus 78 anos
Não houve um dia em que o mundo
não estivesse em guerra
Que o digam pai
As crianças em carne viva
Bombardeadas
Queimadas com armas químicas
O menino refugiado afogado
As cenas tristes em preto e branco
A Rosa de Hiroshima
O mundo esquálido
Sem rima
O mundo beligerante de Bush Bush Bush
E seus fanáticos sucessores
Bombas incendiando caveiras
Bush Bush Bush
Bombas promovendo coveiros
Bush Bush Bush
Não há saídas de emergência
Apenas bombas
Bush Bush Bush Bush
Entre os escombros
À direita
Urnas conservadoras
Explicações rarefeitas
Silogismos carentes de causa-efeito
Nas cabeças ocas
Pululam soluções rápidas
Bush Bush Bush
E assim se esvai a humanidade...
5.4.17
Vida Líquida
A informação está muito diluída
(intervalos são mais ricos que o noticiário)
O leite está muito diluído
(coloquem água, já diziam os milicos de outrora)
A vida está muito diluída
Escorre fluída
facilmente pelo ralo
30.1.17
Tropicana
Aqui almocei com meus avós, pais, irmã, tios e primos na década de 1980.
Por ironia do destino, 30 anos depois, adentrei no antigo hotel Tropicana já como Ocupação do Tijolonho Vermelho.
Convivi com algumas famílias, brinquei com as crianças, formamos até uma turma de alfabetização de Jovens e Adultos.
Vi cenas impactantes na época das chuvas. O cheiro da falta de condições sanitárias vai ficar comigo para o resto da vida. Assim como a luta de um povo por direitos básicos.
O Tijolinho Vermelho foi a maior lição que já tive na vida, a maior escola e o maior aprendizado.
Nunca vou esquecer das crianças brincando com meu filho, do cuidado e do carinho que alguns tinham com o "galeguinho".
Espero que meu filho também nunca esqueça essa experiência de vida e nunca naturalize tamanho descaso com o povo.
Tijolinho Vermelho / Hotel Tropicana
Muitas pessoas escreveram sua história
Elas nunca esperaram um milagre
Cansadas de ficar sentadas
Foram à luta
Sofreram com as chuvas
Sofreram sem uma ducha quente
Sem condições sanitárias
Esta cadeira vazia
Conta muitas histórias
De muitos meninos
e meninas
Que brincavam no Ponto Cem Réis
No Pavilhão do Chá
Na Praça dos Três Poderes
Podres Poderes
Que não querem dar dignidade às pessoas
famintas
Poderes de vestes sujas
Que nunca precisaram jogar suas fezes
Do alto do Hotel Tropicana
Pela simples falta de um vaso sanitário
Podres Poderes
Jogam suas excrementos na cara do povo
Para além da soberba do Tribunal de Justiça
Do Palácio do Governo
Ou da Assembleia Legislativa
Homens e mulheres teimam em escrever sua história
Nesta cadeira sentaram iletrados
Mais dignos do que àqueles sentados nas cadeiras imundas da Praça dos Três Poderes
22.1.17
Patético
O tempo todo
Nos meus deslizes
Nos meus equívocos
Até nos sonhos que invoco
As desculpas e meus farrapos
São traços
São desvios de conduta
São fugas
Para tentar apagar as minhas rugas
São meus escritos sem métrica
São frases sem pé nem cabeça
São desvios éticos
Uso desculpas esfarrapadas por tudo
Até por motivos patéticos
16.1.17
Insônia literária
15.1.17
9.1.17
2.1.17
13.12.16
10.12.16
4.12.16
Seca
Pela indústria da seca
em pleno século XXI
Pelo céu escarlate
Pela cachorra Baleia
que não chora nem late
Oremos
Como os gravetos secos
de olhos fundos
e chão ardente
Brindemos
com panos quentes
pela falta de tudo
com aguardente
Oremos
Por uma saída
Pela chuva rala
Pela intervenção divina
Oremos
Para que todos aqueles indignados
Com a seca alheia
Desçam de seus palanques
E venham sentir esse calor na veia
1.11.16
30.10.16
Provocações
Para Juljan Palmeira
À sombra de uma palmeira
Não descansam mentes perigosas
Subversivos sonhos
Microfones voadores
amplificando quimeras laboriosas
Metralhadoras poéticas
Agitam sábados subversivos
Encontro marcado
com Cabras Marcados para viver
Microfones vão voar
Disparos cíclicos
Serão nosso dia D
Serão cabeças no tempo
Subvertendo os segundos
Amplificando a autonomia intelectual
Não queremos respostas,
apenas provocações para fumar
Numa noite quente de luar...
27.10.16
14.10.16
My little Blue Girl
Lembro do tempo que vivia nas nuvens
Lembro do Vietnã
E dos irmãos que lá ficaram
Lembro das metanarrativas
Tempo que sabíamos quem seguir
Lembro dos cigarros que nunca fumei
Dos canais de TV que não existiam
E de alguns amigos de infância
Que até então não eram fascistas
Lembro dos domingos de praia com meus pais
Ou das tardes de cachorro quente
Numa lanchonete de esquina em Jaguaribe
Ao ouvir a Janis
Lembro como ela era feliz
Como ela era livre
feito aquelas tardes de domingo
Ouço a Janis para me libertar
Tal qual nos tempos em que não fumei
Tal qual nos tempos que eu só precisava de um telefone de linha
E uma menina magricela para ouvir por horas
Ouço a Janis para lembrar o quanto era bom
estar apaixonado por meia dúzia de amigos aventureiros
Ouço a Janis para celebrar o tempo
O tempo que desejei ser hippie
Andar estrada afora sem a menor intenção de um dia voltar para os cachorros quentes de domingo
E quando a música da Janis terminar
Estarei de volta ao tempo da subjetividade
Às músicas de baixo calão
E a falta constante de créditos para poder ligar para aquela amiga magrela
Germe
Existe um germe em plena lua cheia
Cheio de luas para orbitar
Este germe geme
Come ovo com clara e gema
Esse germe é meu tema
cotidiano
Todos os dias do ano
Este germe sou eu
É meu germe autofágico
É meu destino trágico
Este germe é o meu arrependimento
Guardado durante tempos
No meu apartamento
Em caixas verdes de departamento
Este germe é como um bicho geográfico
Que me atravessa de norte a sul
Comendo minha carne
De um cheiro atávico
Este germe me faz lembrar tão bem
Dos bons tempos de infância
Da luta de meu avô por um ramo de trem
Este germe sou eu
Ele repete
Como uma cantilena
Doce e fria
Este germe geme treme
Escreve em letras garrafais
Como se fosse tatuagem
Como se fosse o próprio Caifás
Este germe é minha coceira intermitente
Faz de tudo para estar presente
Por mais eu que tente e tente e tente e tente
Por mais que eu morda
por mais que eu mostre meus dentes
Este germe implantando
Será lavoura e colheita
Neste meu deserto tão árido
Um dia este germe
Descansará em paz
Numa saída sem muito alarido
Não terá mais quem sugar
Nem feriados chuvosos para comemorar
Nem tão pouco lágrimas para enxugar
25.9.16
Poema morto
É como mergulhar num pântano
artificial
Não corto os pulsos como o Veríssimo
Mas desejo, caro leitor
que você imagine que o autor morreu
Atolou-se nesse lodo poético movediço
Morreu sem ar
sem luz
sem isso
Morto, caro leitor
Não posso responder sobre o que escrevi
sobre quem escrevi
ou como estou me sentindo
Morri com o poema
Morri com as tentativas
Agora ele fede
Está em decomposição
Cabe a você, caro leitor
usar a imaginação
E quem sabe mantê-lo dessepulto
Ensaio sobre minha cegueira
Para poder enxergar melhor
Precisei ensaiar minha cegueira
Para poder cantar a vida melhor
Precisei ficar cego
Para compreender a cegueira do outro
Precisei estar cego
Para ver minha própria cegueira
Minha cegueira é minha condição de visão
É quase gagueira
No parlamento imundo
Minha cegueira é minha condição de estar no mundo
É poder enxergar os limites do outro
Estou cego
nada sinto
E ao mesmo tempo compreendo a visão
E sei porque minto
Estou cego e corro
E todos que enxergam
param
Doentes de poliomielite
Estou cego
E tantos que enxergam
Vêem só o pensamento da elite
Minha cegueira é como um parto
Ante o aborto das minhas convicções
soterradas num pacto
Estou
cego
surdo
mundo
E a toda hora mudo o canal
para nada ver além do ego
23.9.16
Etc
Para escrever meu poemas e sentir as vilanias
Basta ligar a TV e ver os políticos que mentem
Basta ir à feira ver os preços e orar para que não aumentem
Não preciso querer compor
deprimente
Já basta o canal que não abre a mente
Já basta a geladeira vazia
comumente
Já basta ler o jornal e ver
como mente
Já não preciso forçar a barra da dor deprimente
Basta ver o consumo rasteiro das ideias
intermitentes
Basta ver a briga interna
dos meus entes
Já não preciso saber quem sou
ou quantos dentes
Parecem visões prementes
Visões emparelhadas de um futuro pouco decente
et ceteramente
15.9.16
eu, vezes nada
Deixo essa última carta
Escrita com o dente
trincado de ódio
Eu, trambolho de gente
Filho do Augusto e do amoníaco
Sinto cheiro de enxofre
Nas cadeiras de chefes demoníacos
Eu, trambolho de gente
Cego de um olho
Míope de outro
Só enxergo meias verdades
Eu, trambolho de gente
Sou maltrapilho
Indecente
Visconde feito de milho
Eu, trambolho de gente
Sou uma rima no deserto
Uma lágrima no oceano
Ninguém de fato, decerto
Eu, trambolho
Às vezes gente
Às vezes ato
Às vezes nada
vezes nada
2.9.16
29.8.16
Heroína
(para Janis)
Nunca usei heroína
Nunca quis ser herói
Ou cowboy
Neste filme sem mocinho
que a vida predestina
Paguei a conta com o preço alto da coerência
Em meio a tanta displicência
Daqueles que um dia juraram lealdade
Os meninos da rua continuam com baleadeiras
Mesmo que já não tenham mais idade
para tanto
Subi e desci ladeiras
Às vezes sóbrio
Às vezes reu
Nunca montado em pedestal de ouro
Sem pés alados a caminho do céu
Nunca usei heroína
Nunca corri o risco de não amanhecer
Aos vinte e sete
Num quarto triste de hotel
Nunca gritei para me mostrar
Ou desafinar
Meu grito era em dó maior
Era o grito do meu tempo
Para sustar os agentes laranjas
Colhidos nos pés podres de barro
Vai Janis
Atira para todos os lados
Tua voz e teus gritos
São balas de anis
Só perfuram carnes amargas
cheias de ardis
25.8.16
Canibais
Uma colônia se espalha ao meu lado
Vermes crescendo
Sem parar
Poemas não brotam mais
Nesse desaguadouro
De canibais
Sujeitos comem minha carne
Repelem meus livros
Queimam meu corpo que arde
Estou embrutecendo
Estou emudecendo
Estou descendo
ladeira abaixo
Sinais dos tempos
De silêncio e tecnologia
Sinais dos tempos
Ventos conservadores
Não alimentam a autofagia
Guitarras não reagem mais
Crianças não reagem mais
Meus sonhos não suspiram mais
E (quase) todos escondidos com medo
dos canibais
11.8.16
1.8.16
Aqui jaz
Nesse mar revolto
Nessa química perfeita
De ondas coloridas e paisagens resolutas
Já imaginei essa louca amálgama
De cinzas e sonhos
De derradeiros desejos
Essa enseada
O platô que anuncia a vida
O verde misturado ao azul
As rochas valentes
As ondas quebrando
O som da ressaca estridente
Não esqueçam
Exatamente neste ponto
Onde anunciam a jurema
Deixem minhas cinzas
(eu preferia a carne viva)
Alimentar essa última aventura extrema
23.7.16
Tudo
Eu já tentei de tudo
Tentei fazer omelete sem quebrar os ovos
Tentei construir parede sem tinta vermelha
Descansei no sétimo dia
Na sombra de uma rede
Enfrentei os sete mares
Descrevi vidas em xilogravura
E acabei fixo, numa moldura
Já tentei de tudo
Fiz da vida uma cozinha de forno a fogão
Fiz poupança, espada, lança e redenção
Eu pensei que éramos muitos
Nessa síndrome tecnológica da austeridade
Terminamos sós
Nus
Abatidos na tenra idade
19.7.16
violência
Das vicissitudes
Do sangue que corre em minhas veias
Corro da violência
Da falta de atitude
Das estatísticas
em larga escala
Larga minha mão
Beija minha boca
Sangra meu beiço robusto
Larga meu peito
Esfola meu busto
Me diz quanto vale
O custo
(Brasil)
Chega de violência
Chega mais violência
Chega de violetas
E roletas russas
Eu sou minha própria violência
Estilhaço pedaços de mim
Me engulo
Sou o verme do meu próprio cadáver
Lesto e seguro
Digo adeus na hora da chegada
E abro mão do meu sangue puro
16.7.16
Os dez últimos dias
Os dez últimos dias
E o som não mais principia
Sem tese, antítese ou síntese
Não há cura
Para uma doença de dez dias
Não há cura
Para longas passionais
Não há cura
Para lutas inglórias
Não há cura
Para vizinhos inescrupulosos
Não há cura
Para orquestras desafinadas
Não há cura
Para trabalhos vazios
Não há cura
Quando se quer apenas dez últimos dias
Não há cura
Não acuda
Não acura
Não cura
Não...
6.5.16
Oração
Depois de um dia obscuro
Depois de ter que pular tanto muro
Desejo que você não se vá
Depois de assistir tanta tevê vazia
De ter que conviver com essa azia
Por favor, não se vá
E ver um sujeito ignóbil
E saber que é tão óbvio
Que sou tão egoísta quanto essa res publica
Com uma clave de sol resplandecente
- Durma com a escuridão e com a sua visão turva
29.4.16
Contingência
Sou do tipo revolucionário
Que deserta da guerrilha rural
No primeiro sinal
De um amor beligerante
Que se encanta com os acordes doces
E não chego a endurecer
Só em pensar em perder a ternura
Num bravo amanhecer
Por esse motivo
Não me alistei
Preferi a reserva de contingência
Por um desejo furtivo
Preferi ficar quieto
Escutar tuas músicas
Teus acordes
E dormir apaixonado
Eternamente,
no teu colo esplêndido
28.4.16
Nau
26.2.16
Novidade
Depois da febre dos 40
Ando repetitivo demais
Sem novas palavras
Sem novos temperos
Poemas com o mesmo fim
Caldo de feijão preto com o mesmo sabor
Se ao menos soubesse fazer um tropeiro
Ou escrever romances sem fim
Até os cabelos brancos parecem iguais
Qual a novidade nos canais de TV?
Qual a novidade nos anais da história?
Qual a novidade da máquina de escrever?
A vitrola roda os mesmos discos de 1980
O noticiário estampa as mesmas manchetes de 70
Qual a novidade desses poemas sujos?
Qual a novidade do Cristo redentor?
Qual a novidade deste sistema predador?
João Pessoa não virou Paraíba
Goulart não foi assassinado
Getúlio não criou o Fundo de Garantia
Qual a novidade no Cine Banguê?
Qual a novidade na obra de Zé Lins?
Qual novidade vai me fazer feliz?!??!??!
25.2.16
Perdão
O teu pedir perdão
É um salto no infinito
do tempo
As mágoas, as contradições
As feridas abertas
O teu pedir perdão
É uma carta sem logradouro
Palavras que chegarão
No desaguadouro
da ilusão
Peço perdão por ti
E vou dormir em paz
24.1.16
Cabelos Brancos
A esse silêncio profano da legalidade instituída
Prefiro a cadeira elétrica
o pau de arara
o verdugo encapuzado
À lerdeza infinita e deliberada do Tribunal de Justiça
Prefiro ser enterrado como suicida
A esperar pelo julgamento da minha causa
Prefiro as bombas em bancas de jornal
Do que esse imprensa comprada
Prefiro as barricadas, os molotovs
o manual do guerrilheiro urbano
a esses partidos de outubro
Mas, são tempos vindouros
que engoliram o tempo passado
É uma era do ouro
que se expande com crédito cidadão
O que estava expondo
agora camuflado
O que era violência
agora paz dos túmulos
O que era tortura
virou crise [ano que vem o país volta crescer]
O que era exploração
oportunidade
O que era rebelião
idiotice
O que era mínimo
salvação
Coisa do passado
anacronismo de cabelos brancos
E continuo escutando os Beatles numa vitrola de agulha
Datilografando poemas num máquina vermelha
Escovando os dentes com juá
E vou continuar me recusando a pintar os cabelos
mesmo que aqueles 21 anos ainda perdurem
9.1.16
Feridas
Minhas feridas abertas
hoje demoram a cicatrizar
Antes fechavam em pouco tempo
gotas de mercúrio cromo e paciência
Mas não causam inveja às feridas internas
Centenárias, purulentas, viris e teimosas na cicatrização
6.1.16
5.1.16
18.12.15
29.11.15
27.11.15
26.11.15
3.11.15
Futebol
Fui dormir pensando na "voadora" que meu filho levou de uma outra criança.
Ernesto adora futebol, e mesmo numa pracinha, sem espaço para a prática futebolística, é inevitável improvisar travinhas e times. Sem conhecer ninguém, basta colocar sua surrada bola de vôlei de praia para correr praça a fora que começam a chegar os novos amigos interessados num joguinho de futebol com bolas e espaços inusitados.
Dois meninos se aproximaram, um pequeno demais para os cinco anos de Ernesto, outro grande demais. Com o pequenino ele brincou de ser o dono da bola, correr praça inteira e não perder o controle da brincadeira. Quando o menino mais velho entrou na roda foi com o sentimento do violento esporte bretão. Entradas maldosas, ar competitivo e jogadas agressivas, incompatíveis com a idade daqueles que só viam prazer naquela prática espontânea.
Eu deveria ter encerrado a brincadeira no primeiro round. Não o fiz, e as consequências foram a queda no chão duro, o arranhão e o choro.
É o futebol, desde a tenra idade, mostrando a rudeza das nossas relações sociais.
25.10.15
Escrito denegrido
Hoje eu me sinto tão negro
Orgulho da cor, do nariz,
do tamanho do meu cabedal
Orgulho de compartilhar escritos
De me sentir Zumbi
na resistência à elite colonial branca
Hoje eu me sinto tão negro
Mesmo que a elite exponha suas propagandas arianas
Mesmo que digam que o meu é bom
Em detrimento a um cabelo que teimam adjetivar de ruim
Meus beiços, meus beijos
Meus sentimentos negros
Dos meus antepassados
Da minha bissavó que não foi capitã
de Areia
Para da Costa (ou Camarada Yuri)
Não para da Costa
Para costa antes do naufrágio
Tantos ratos neste porão
Tantos vazios nestas costas
Submersos nossos sentimentos
Não permitiremos que nos afoguem
Para a costa!
Homens e mulheres à vista
De longe em longe
Como em Terra dos Homens
Um diria veremos a costa
Límpida, fagueira e resplendente
Para isso é preciso repetir,
sempre e sempre:
Não para da Costa!
21.10.15
Professor Jó
Terça, três da madrugada. Acordo depois de um pesadelo. Uma sala de aula, alunos procurando intrigas e blasfêmias. Tentativas frequentes de estratégias para desestabilizar o professor. Conversas paralelas, caras e bocas. Tocaias para provocar o erro. Ar sarcástico, ironias, desamor.
Acordo ofegante e passo a escutar o alarme do relógio hora após hora, até as seis da manhã.
Começa o dia. Uma rotina que se prolonga por longos dezoito anos.
A última vivência, sempre taxo como a mais dolorosa experiência do magistério que enfrentei. Meus neurônios não suportam, fustigados pelo tempo.
Um equívoco qualquer é inevitável apesar das longas horas de preparação e leituras prévias.
O pesadelo era a antevisão, a aula a realidade.
Seres inacabados, de sentimentos inexplicáveis, transformam o déjà vu em tormenta concreta.
Próxima terça, enfrentarei um novo colisseu de leões sedentos que irão se revezar até dezembro - ou até eu parar de oferecer minha carne de Jó.
16.10.15
Em terra de mudo
Olho para dentro
De olho no furacão
O olho da tempestade
Olha para mim
Com olhos de fúria
Não confundo alhos com bugalhos
Todos os olhos
Olham para mim
E enxergam muito bem
15.10.15
Ano tosco
Escorre pelo funil ano tosco
Enforca-te com tua própria gravata
Leva contigo uma lesão de menisco
O verdugo que te pariu
E as reminiscências que afligem minha cabeça
Oh ano tosco
Lembre-me de brindar o janeiro
De ludibriar teu sucessor
Para esquecer as sequelas passadas
Durma em paz ano tosco
Sem processos, joelhos, cartas passionais ou diretores infames
Anayde
Vim ao teu encontro apenas para dizer:
Não sintas culpa por essa carranca enterrada no centro da capital paraibana.
Já temos certeza que são esses restos mortais (liberais) que emperram toda e qualquer possibilidade desta terra do Norte encontrar o desenvolvimento.
Não foram tuas cartas, tua dor, tua paixão ou tua liberdade que entravaram o desiderato desse povo do Norte.
Esses ossos infrutíferos e essa história mal contada precisam ser cremadas e jogadas em alto mar!
Anayde, precisas contar tudo o que sabes. Precisas expurgar esse doce veneno, fazer explodir essa paixão pela vida, resplandecer esse tomar de conta do teu destino.
Livra-nos desse vermelho e preto.
Voo Pedagógico
Depois de quase vinte anos no magistério
Virei um professor rai-teque
Quase todos alunos passam a aula cabisbaixos
De olho no uatizape ou feicebuque
Quase todos nem na biblioteca foram
Pegar os livros que encomendei para a leitura coletiva
Quase todos acham por demais
Alguns exemplos que dou:
Nunca chegar atrasado
Nunca faltar
Sempre valorizar a hora-aula
Sou um professor moderno
Diálogos em círculo
Lutando contra o fim das metanarrativas
da teoria pós-moderna
[E dos bocejos discentes]
Parece que prego no deserto
Parece que o desapego chegou aos livros, ao papel, à escrita cuneiforme
Sou um professor moderno
Compro os jornais dominicais para ler com meu alunos
Que parecem estranhar aquele papel cinza
Em forma de tablóide
Durante anos vi professores cansados
Cabelos pretos ou grisalhos
Jurei nunca me abater
Mas, às vezes, fico com a sensação
De ter sido abatido
Em pleno voo pedagógico
14.10.15
Gelatina Geral
Eu pensava que dentro de mim
Havia um Sartre
Sem idade, sem razão, sem Simone
Descobri que dentro de mim
Habita uma gelatina
Sem sabor, sem cor
Insípida, inodora, estúpida
Dentro de mim
Apenas escarlatina
E um jogo de sete erros
6.10.15
Sobrevivência
Falo, falo, falo
Repito
Entre as enormes dimensões de teu ego
Tento esquecer as conversas truncadas
As informações desconexas
O amor demodê
As usurpações passadas
Resta-me essa fala, calada
Falo, falo, falo
O meu silêncio em ação
Para um observador desatento
Pura arrogância, prepotência
Sexismo exacerbado
Para mim desconjuntura
Dedo em riste
Sobrevivência
29.7.15
Mi Menor
Amanheceu liberto
Livre das amarras
Da produção fabril
Da exploração comercial
Amanheceu liberto
Sem ponto
Sem dores
Sem mais valores
Escolheu a liberdade do sistema
A liberdade de passar fome
A liberdade de estar desempregado
De não mais gerar riqueza
Não mais valor
Não mais alienação
Escolheu inclusive o tempo de partir
Antes de esquecer de si
Neste longo inverno
Em mi menor
25.6.15
Escolas
Esses meninos enjaulados
Enclausurados em meio turno
Sem direito ao banho de sol
Como vou dizer aos alunos
que não gritem
Se quero que eles abram o berreiro
Como vou dizer aos alunos
que não batam
Se precisam se proteger da polícia
Como vou dizer aos alunos
que não quebrem essas algemas
da pobreza, da indiferença e da miséria
humana
Como vou dizer aos alunos
- Chega de violência!
Se o prefeito, o governador, o juiz e o policial
agem em nome de um Estado truculento
Meus alunos têm cáries, manchas na pele, fome, sabem muito bem onde dorme o inimigo e quem são os sujeitos omissos.
Por isso, as escolas têm grades.
Vestibular
Escrevo porque sonho ver poemas
se transformarem em alternativas no vestibular
Caso não entendas o poema
marque a letra c
Já dizia a bizurada
Quero, com gosto, responder a questão
sem ter acesso ao gabarito
Ter a certeza que não me compreendo
ao errar tão simples enunciado
Tempos sombrios, poemas inúteis viram questões de múltipla escolha
E a vida segue sem muitas escolhas
Acorde
Eu já sabia, eu já sabia
Não adiantaria voltar a terra onde foi enterrado meu umbigo
Isso não me fazeria viver
Isso não me fazeria lutar
Continuo à beira desta cova rasa
De prenome solidão
Aqui jaz
Guitarra, granada, canhão
Lembro que desde menino
Tento tocar Vandré no violão
E não consigo passar de três acordes
E o mundo [quase] todo parece adormecido
Acorde, acorde, acorde!
40
Sempre corri contra o tempo
Desejei mil revoluções por minuto
Pois sabia que um dia faria quarenta
Hoje, velho e cansado, leio o jornal de pantufas
Cada página do tabloide escorre sangue da violência doméstica
que domestica lares e enclausura sujeitos
Mesmo soterrado pelo alzheimer
Não esqueço do quanto era bom
imaginar a bancarrota do sistema
Hoje sou um resto do nada
Uma crônica do sucesso às avessas
O sonho de um pobreza desvairada
Um descontrole inepto das sinapses nervosas
Às vezes surto, acordo revolucionário
Basta anoitecer para as estrelas iluminarem as limitações
Não mais verei transformações radicais
Às vezes surto, acredito piamente nas multidões
Basta amanhecer para acordar isolado
triste, desolado
Nem o chuveiro elétrico dou conta
muito menos James Joyce
Cada página que leio, um vazio
Cada página da vida, revirada
O medo da morte transfigura-se
Torna-se doce deleite
A vida apenas um tempo
passado
18.6.15
Rico
Quero morrer rico
Soterrado pelas miudezas
Ou afogado no pacífico
Quero morrer rico
Enlaçado pelo pescoço
Em carne e osso
Quero morrer rico
milionário
Um milhão de amigos
E sem um tostão no sistema bancário
5.6.15
4.6.15
Relâmpago
Foi um professor relâmpago. Chegou sorrateiro na escola e sumiu num piscar de olhos. Começou o ano, ministrou poucas aulas, enfrentou uma greve, retornou para a sala de aula e desapareceu. Alguns dizem que foi por causa do joelho que, de fato, torceu durante uma das aulas práticas. Rumores afirmam que seu nome estava num dossiê elaborado pela secretaria de educação. Falam que um tal conselho desejava sua demissão, já que ele se recusava a pagar a anuidade. As más línguas reiteram que o presidente pelego do sindicato estava pedindo sua cabeça numa bandeja de prata. Relatam também que a esquerda do magistério prefereria ele longe das disputas internas para não embolar as já tumultuadas eleições sindicais. Outros encontraram o caderno de trabalho com rabiscos de poemas e músicas melosas da Legião, imaginaram uma depressão de origem passional que afetou sua capacidade laboral. Falaram até em partido, guerrilha, revolução e terrorismo, mas não entendemos muito bem. Nunca saberemos, simplesmente se foi e nunca mais apareceu. Foi apenas mais um professor...
Silêncio
És um silêncio lindo
Mudo de ares
Pinto aquarelas
Digo besteiras
Teu cabelo combina com a primavera
Sentinela bastarda da efusão de cores
Vermelho, verde, azul, amarelo
Misturo tudo em paletas
Rompo a lógica do arco íris
Bem mais que sete cores
Teu silêncio é um sopro de beleza
Tua cor alva
Teus olhos vivos
A voz adormecida e adocicada
Faço esforços para fluir conversas
Para que?
Basta o silêncio, o cheiro, o cio
E por último uma taça de lágrimas
cheia de saudades
1.6.15
Labirinto
14.5.15
Mimo
Sumimos neste quadro grotesco
De janelas cerradas
De grades e cercas
De gente enclausurada
Para tanto, só mimos
Sobrevivido
Tenho sobrevivido aos abalos vívidos
Dos tremores sísmicos
Da escala ríspida
Tenho sobrevivido sem bares nem ares
Aos apelos do iogurte de sabor fenomenal
Em potes de uma vida insossa
Tenho sobrevivido aos rumores enlatados
Dos amores infiltrados
Com prazos recursais indeferidos
Tenho sobrevivido ao tempo
Aos espasmos midiáticos, à crítica teatral
As peças pregadas pela vida
Tenho sobrevivido especialmente
A esses restos de homens
A esses pratos de ontem
A esse ofício sem rumo
A essa noite sem fim
5.5.15
Sobrevivência escolar
Era apenas meu aluno, um cavalo e uma carroça
cheia de papelão
O ganha pão de um menino transformado em homem
Era apenas um aluno, distorção idade-ano
estudava no quarto ano fundamental
Era apenas um aluno
quinze anos
Ensinando o fundamental da vida
[a sobrevivência]
Na falta da infância
das letras
da família
da comida
Seguia roto nos descaminhos da vida
Gritou por mim: - professor!
Lembrei do dia em que pediu para repetir o suco
Poucas goiabas naquela merenda esquálida
E teve como resposta uma negativa seca
Tão esvaziada quanto seu estômago
Era mais um aluno que ensaiava durante as aulas
Capoeira, mata-leão, golpes afins
Com o objetivo de combater o aparelho repressivo
Não me caberia repreendê-lo
tornei-me seu discípulo
nesse árdua batalha pela sobrevivência
18.4.15
4.4.15
Exoneração
Não bebo
Não fumo
Só transo com camisinha do SUS
No almoço, ovo com cuscuz
[orgânico]
Carro velho quitado
Casa do Vovô
Com teto, telhado e sem dívidas
Não paro em bares
Mergulho de graça
No profundo azul do mar
Tuas ameaças não abalam
Meus ideais
Não sofro do fetiche da mercadoria
"Exonere-me covarde
Você vai demitir apenas um homem!"

















