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13.10.14

Dobradiças

E o meu silêncio virou noite
Silêncio de uma casa inteira
Silêncio que fala mais que uma novela

Silêncio dos túmulos
Na calada da noite fria
Silêncio de uma sinfonia inacabada

De repente um ruído
Um prurido
Um tiro no escuro
Centenas de vezes gritei
Um grito mudo
Acuado, diuturno

Centenas de vezes decorei a fala
Do monólogo apresentado a mim mesmo
Num silêncio sepulcral

Centenas de vezes desconfiei
Que aquele silêncio era um eco
O ressoar de palavras [mudas]
A partida
O tilintar de algum recado
Que lavrei em papel alheio

Apupos secos, silenciosos
Proclamam, pelo menos hoje,
que parti

Parti em silêncio, sem abrir nem fechar portas
Para evitar o ranger e o gemido das dobradiças

[ ]

Depois de uma multidão
Preciso mesmo é do quarto vazio
Do silêncio dos meus pensamentos
Sem a interferência da antena de TV

Chama silêncio que não arde
[cala] balde d'água
Entope o barulho ensurdecedor
Das mazelas diárias

[silêncio]
[silênci]
[silênc]
[silên]
[silê]
[sil^]
[sil]
[si]
[s]
[]
.

27.9.14

Paraibano

Sou paraibano, nascido em Recife
[por engano]
Batizado às margens do Rio Sanhauá
Alimentado pelo refrigerante homônimo
E pelo Dore Guaraná

Nascido na Várzea
[repito, por engano]
Foi a várzea quem me criou
Correndo pelos campos de terra e pedra
Junto com os moleques de Mandacaru

Jogava bola com Zé da Penha
E outros tantos Zés-Pés-Descalços
Com tantos calos que denunciam
Que hoje não brotam mais nas Cinco Bocas
As flores do mandacaru

Nunca mais vi Zé da Penha
Nem os campinhos de várzea
Nunca mais tomei banho às margens
de qualquer rio
A cidade ficou poliglota?
Ou será que a idade se transformou num vazio?

Onde estão os meninos de pés calejados
que um dia tomariam esta terra de assalto?
Foram todos engolidos por este ignóbil asfalto?
Onde estão os indignados, cujo os pais bailavam no Pé de Ouro?
Foram todos suprimidos pelas urnas de outubro?
Ou foram vítimas do calibre do três-oitão?

Sou paraibano, repito
[apesar de nascido em terra alheia]
Escuto todos os dias as vozes da infância
Dos meninos da zona norte

É preciso reencontrá-los, dizer que ainda é possível
Deixar outro legado

16.9.14

O verme

[Microconto]

Era fruto de uma vida tão solitária, mas tão solitária, que a própria solitária que vivia feliz em suas entranhas morreu de solidão.

Plúmbeo

A cidade ferve... é provável que esta semana tenhamos mais gente na rua... insatisfeitos com essa forma tosca de tocar a "política"... desabrigados de reuniões desmarcadas, pessoas sem teto, sem emprego, sem projetos, cansadas desse oco, dessa cantilena que afirma, não despretensiosamente, que estamos em descenso. Estamos correndo ladeira acima, com o sangue fervilhando, cobrando, mirando em todo ser obtuso, que mente por esporte, por não ter nada melhor que fazer... cansamos de claquete, de gente paga para aplaudir (ou nos vaiar), de paletós e microfones... não há mundo virtual que nos cale, que nos sufoque, que deixe nossos glúteos sentados eternamente... essas correntes que nos aprisionam deixarão de ser nosso algoz e participarão da grande festa, da comemoração da liberdade, muito além de algum confirme numa passagem nebulosa de outubro... as correntes contarão cada aflição que passamos, cada humilhação que sofremos e exalarão o sabor plúmbeo desse amálgama ferroso do suor do povo lutando por seus direitos.

14.9.14

Vazio

Amanheci no Ponto Cem Réis vazio
Num domingo que poderia ter a cara do lazer
Eu, meu filho e a bicicleta
Dando voltas, imaginando aquele espaço
Repleto de acrobatas, palhaços e piruetas

Pensei em vários esportes
Patins, ciclismo, futebol, vôlei e basquete
Pensei nas crianças das ocupações
Pintando rostos, comendo algodão doce
Os pais nas oficinas de formação política

Mas a desgraça corria solta
A Lagoa tomada por buzinas, óleo diesel
Carreata, políticos, adesivos, sujeira

E o domingo correu vazio

13.9.14

Alô Alô Ivo



(Para Ivo Herzog)
 
Alô Alô Ivo
Mande notícias de Compostela
Pois aqui até Adão quer comer a costela
Do pobre menino negro
Enfiado no camburão
Com cara de navio negreiro*

Alô Alô Ivo
Acelere o caminho
Pois aqui tem desesperado
Com uma fome animal
Querendo inclusive diminuir
A maioridade penal

E os mortos e desaparecidos
Continuarão a empilhar
Os anais da história
Com o aval do estado mau

Alô Alô Ivo
Volta logo camarada
Hora de rever conceitos
Pensar no lixo da história
E evitar que nossa juventude
Faça o caminho sem volta

* “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” (O Rappa)

7.9.14

Para Joselúcia

No nosso último encontro em terras baianas você comentou como eu estava magrinho. Sigo magrinho, feinho, feito Fabiano, em Vidas Secas, que ao contar os trocados recebidos do patrão constatou que a exploração era tão cruel quanto o engodo da democracia neste sistema. Os cambitos combinam com os parcos recursos da educação, finos e incrustados nesta tênue linha entre a miséria e a insensibilidade patente dos gestores. Sigo catando restos de vida, tentando apaixonar gente para a luta e me indignando dia após dia. Talvez por isso dez quilos esvaíram porta afora, sem pedir licença. Na feira encontrei dois amigos de longa data, igualmente macérrimos, contando doenças e descasos. Por isso, resolvi correr contra o tempo e assim não deixar para amanhã as batalhas de hoje. Sigo saudoso das terras do velho Jorge, mas, apimentado que sou, enraizei-me em terras paraibanas que, antes de comerem meus olhos, sentirão todo ardor que poderei exalar enquanto eu sentir o cheiro do vilipêndio atroz desses gestores desumanos.

Agradeço o teu olhar puro que ainda enxerga a beleza neste rosto uva-passa,

saudades,

Lauro

6.9.14

O IDEB na capital paraibana

Acaba de ser divulgado o resultado do IDEB 2013. Apesar das limites e das incongruências do índice da educação básica, gestores alardeiam aos quatro cantos que a educação vem melhorando, apesar das notas e projeções estarem sempre aquém do mínimo esperado, e mesmo assim comemoram notas inferiores a 5,0.

De maneira superficial, as notas do IDEB podem apontar os problemas das redes de ensino e nos ajudar a compreender quais são os gargalos da educação nos municípios.

No caso do município de João Pessoa/PB o resultado foi pior ainda. A nota final do 5o ano da rede pública municipal de ensino foi 4,5 abaixo do resultado de 2011 (4,6). A nota do 9o ano, acreditem, foi 3,7 abaixo dos 3,9 alcançados em 2011.

E por que as notas do IDEB da cidade de João Pessoa/PB despencaram?

Um dos elementos para consolidação de um rede de ensino de qualidade está relacionado com a CARREIRA DOCENTE.

Infelizmente, a rede pública municipal da capital paraibana tem em seus quadros mais de 60% de prestadores de serviço (dados do SAGRES/TCE/PB), que são trabalhadores da educação sem vínculo, sem estabilidade, sem direito a uma carreira profissional, que recebem bem abaixo da média salarial e estão suceptíveis a todo o tipo de coerções (para não dizer uso da máquina pública em períodos eleitorais).

Se havia alguma esperança que a atual gestão pudesse mudar esse quadro, a prática tem sido outra. Forçado pela necessidade legal de realizar concurso para a área de educação (o último foi realizado em 2007!) o atual gestor brinca de fazer concurso e não convoca os aprovados, em detrimento a mais de 6.500 prestadores estarem sendo pagos com a rubrica magistério FUNDEB (SAGRES/TCE/PB).

Mesmo com a previsão legal da nomeação garantida pela LDO 2014, com o excesso de arrecadação do FUNDEB (segundo o Semanário Oficial da PMJP mais de R$ 6 milhões no primeiro semestre), com recursos extras injetados em 2014 pelo reajuste do FUNDEB 2013 e pela Complementação do Piso por parte da União, o prefeito de João Pessoa/PB teima em não convocar os aprovados no concurso público.

E os índices educacionais na capital paraibana, infelizmente, seguem ladeira abaixo.

3.9.14

Incisivos

Quando lembro que um Veloso Borges
Atirou para matar no João Pedro Teixeira
E como sexto suplente
Tornou-se deputado, livre e solto

Quando lembro que um filho de governador
[aquele mesmo que atirou para matar, virou deputado e renunciou para não ser julgado, livre e solto]
Segue líder nas pesquisas "eleitorais"
Vejo que o tiro causou a morte
e a morte
Da Lei da Ficha Limpa

Quando vejo um policial à paisana
Mostrar a arma para um trabalhador
Dar voz de prisão
Por portar pneus em seu carro
Pneus usados pelo trabalhador para lutar por moradia digna
Vejo a morte prematura da dignidade

Quando vejo um bebê de colo
Chorar na porta da delegacia
Esperar a soltura do pai preso
Pela ação arbitrária de uma polícia lacaia
Debruçada numa acusação infame

Imagino que não devemos esperar pelo amanhã
Que não devemos encher urnas
Que não podemos viver calados
Que precisamos construir nossas armas
E partir para a ofensiva
Nem que seja com os nossos incisivos
Nem que seja de maneira incisiva

30.8.14

Sono

E assim na caminha a humanidade

24.8.14

Verdugo



O verdugo da educação
Decapita alfabetizadores
Alija futuros escritores
Sonhos de uma outra nação

Arruína carreiras
Imprime moléstias
Esmaga o presente
Troca professores por votos vis

O verdugo da educação é tão pusilânime
Que teme o povo letrado
Consciente, irado
Entoando a voz que rime

Que cante canções, proteste
Frente ao descaso inconteste
Transforme todo o giz
Em metralhadoras para além do festim

O verdugo da educação mascarado
Nunca mais será ovacionado
Quando o povo formado
Acabará com todo esse circo armado

E escreverá sob a lápide do último carrasco
Em letras garrafais:
Agora vive em paz a EDUCAÇÃO
Aqui jaz o verdugo para nunca mais

24.7.14

Circular 1500

A namorada morava muito distante. Quase sempre pegava o último transporte público estatal (acreditem, um dia ele existiu), naquelas noites escuras de postes com as luzes queimadas.

Vencido pelo cansaço do dia e pelas horas intensas de namoro, fazia o trajeto de volta para casa dormindo. Impressionava como sempre acordava perto da parada de casa e nunca ultrapassava os limites do sono.

Dormia sentado, olhos cerrados, coluna ereta pois sabia que o encosto do banco da frente seria mais um circular pela cidade. E assim se chamava a lotação, Circular 1500.

Uma hora e tantos minutos de viagem, vários bairros, várias comunidades e muitas histórias. A mais trágica foi no dia que acordou assustado após ter sido acertado por um objeto estranho.

Ainda anestesiado conferiu a boca, os dentes, os olhos e sentiu uma lama escura e espessa espalhada no rosto. No chão, ao lado, um sapo cururu enorme, também desconfiado, não sabia como havia se transformado em artefato de guerra e alegria dos moleques de boa mira.

23.7.14

Doutor Honoris Lixus

Não vou arredar pé
Ficarei circunscrito a esse espaço
Provinciano
Limitado pelo desejo
E por minha falta de fé

"Não comerei da alface a verde pétala"
Nem provarei esse gosto amargo de fel
Não farei inscrições indevidas
Metade de mim não será consciência rala

Farei greve de fome
Tocarei fogo em meu corpo
Mutilações mil
Mas não serei mais um homem

Que enterrará seus princípios
Meios e fins
Com caminhos não justificados
Jogados em precipícios

Não vou abrir mão
Dos meus braços, antebraços
Pés de barro
Cabelos, unhas e corrimão

Quero minha ficha corrida
Parada de amolações
Dias claros, tardes quentes
E uma noite bem dormida

Não darei bandeira
Posso até ser confundido
Com aquele homem no lixo
Meu deus, que nojeira

Mas não serei ficha suja
No meio da imundície do pátio
Posso catar lixo, com o título na mão
Doutor honoris causa
Desta vida dita cuja

20.7.14

É fuzil?

Efusivo dilúvio tempestivo de um sistema gerador de sujeitos empertigados

É possível?
É fuzil alguma solução
Fusível
Neste mar vermelho
Plasmado por esta paz dos túmulos?

Por esta justiça que arrebanha gados
Açoitados para o abate
Como a primeira coluna, esquartejada, no dia D

Dia de todos os mortos
Das carnes repletas de bolor
Mofadas pelo ritual nefasto
E pelos gritos de horror

Sentimentos comprados a prazo
Consciências com cheques pré-datados
Taxas especulativas sobre o livre pensar
Aluguéis, pensões, ações em bolsas sem estética
Nessa éticapatética que nos leva a crer nos comentários vazios das noites de domingo

É fuzil? É violência a música que toca no rádio da polícia?
É fuzil? É verdade a saia justa do político na voz do Brasil?
É fuzil? Covardes adormecidos em berço esplêndido, da nossa pátria mãe gentil?
É fuzil? Neste oco da intelectualidade que navega em mar arredio?

É fuzil alguma solução?

15.7.14

Doação

Conduzido por La Poderosa (magrela, camelo ou simplesmente bicicleta) segui com uma bolsa pesada, cheia de livros, em direção ao IFPB (nenhuma ciclovia no percurso, só para constar).

Trouxe livros para doação, e já comecei a retirá-los da bolsa.

Não estamos aceitando doações, a biblioteca está cheia, disparou o servidor.

Boca aberta, catatonia vespertina, olhar marejado, silêncio.

Agradecemos [ponto]

(Deixei os livros na Coordenação do Curso de Licenciatura em Química, para o proveito de quem desejar, pelo menos lá pude doá-los)

[ponto]

9.7.14

Biblioteca

Desde ontem procuro uma biblioteca no centro da capital parahybana.

A biblioteca da Faculdade de Direito da UFPB foi desativada esta semana. O diretor da Academia do Comércio falou que a biblioteca só pode ser usada pelos alunos da instituição.

Na biblioteca do Ministério do Trabalho não pude ligar o computador, as tomadas só podem ser utilizadas pelos servidores. O servidor da Assembleia Legislativa não soube informar onde ficava a biblioteca.

Por último visitei a biblioteca pública do estado. Prédio histórico, convidativo e acolhedor, mas com as janelas abertas ao lado de uma rua movimentada, com as buzinas e arrancadas dos carros desviando a concentração. Quatro computadores para todo público e o wi-fi? "Não liberamos a senha, pois a internet é de apenas 3 giga", disse-me a servidora.

Pelo menos consegui ler o Jornal A União (único disponível) e doar alguns livros.

"Pode ser o país do futebol, mas não é com certeza o meu país".

Assalto em Alagoas

No dia 08 de junho de 2014 estava fazendo uma viagem de carro de Sergipe para a Paraíba. Em Alagoas fui parado pela Polícia Militar, numa daquelas fiscalizações corriqueiras.

Parei o carro, apresentei os documentos e aguardei o policial sem sair do veículo. Como de praxe o PM foi conferir os documentos com a placa traseira, retornou e me fez o convite para descer.

Este carro já sofreu alguma batida traseira? Perguntou. Sim, por duas vezes, respondi. Pois o lacre está rompido, asseverou. Apontei para o lacre branco da placa, intacto. O PM colocou a mão na parte interna da placa e pediu para que eu fizesse o mesmo. Está rompido aqui na parte traseira, vou ter que apreender seu documento e você terá cinco dias para retirá-lo em Maceió. Mas vamos ali conversar com o Coronel (?).

Qual a sua profissão? (fico imaginando o interesse na pergunta). Ainda não multei o senhor, saia do sol, venha pra cá. (Silêncio). O senhor quer me dizer alguma coisa? Não, respondi. (Silêncio). Fique à vontade senhor. (Silêncio). Olhe, o talão de multas está na pasta aqui na viatura, eu ainda não multei o senhor, fique à vontade. (Silêncio).

Fui em direção ao carro ver meu filho que dormia e suava bastante devido o calor das 15h. Fui chamado de volta. Constrangido e com o princípio peremptório de não macular essa ação sinistra, continuei em silêncio. (Mais silêncio).

O senhor quer me dizer alguma coisa? (Silêncio). Tudo bem senhor, aqui estão os seus documentos.

Dei as costas e ouvi o derradeiro recado em tom sarcástico: a multa vai chegar na sua residência.

Hoje, 09 de julho, recebo a notificação da "infração": conduzir o veículo com o lacre de identificação violado/falsificado. Classificação Gravíssima. 7 pontos.

6.7.14

Não mais que vinte

E faltam apenas vinte
Anos de solidão
Para poder cumprir qualquer tarefa
Qualquer meio de chão

Para poder fazer mais amigos
Desprezar qualquer quina
Ou milhão

Fiz as contas
Não mais que vinte
Futuro certo
Filho criado
Destino revide
Solo fértil
Da mãe gentil

Não mais que vinte
Anos de contemplação
Caberão quantos assaltos
Quantas ocupações
Quantos escritos
Saídos do forno
Bem quentinhos
Passados na manteiga
Na contramão

Não mais que vinte
Subir e descer
A antiga Palmeira
Passar no Cem Réis
Cortejar Livardo Alves
O busto de Augusto
O Caixa D'Água

Não mais que vinte
Não mais que pinte
Tinta guache em meio muro
Não preciso de mais