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14.5.15

Sobrevivido

Tenho sobrevivido aos abalos vívidos
Dos tremores sísmicos
Da escala ríspida

Tenho sobrevivido sem bares nem ares
Aos apelos do iogurte de sabor fenomenal
Em potes de uma vida insossa

Tenho sobrevivido aos rumores enlatados
Dos amores infiltrados
Com prazos recursais indeferidos

Tenho sobrevivido ao tempo
Aos espasmos midiáticos, à crítica teatral
As peças pregadas pela vida

Tenho sobrevivido especialmente
A esses restos de homens
A esses pratos de ontem
A esse ofício sem rumo
A essa noite sem fim

5.5.15

Sobrevivência escolar

Não era um cavaleiro diletante
Era apenas meu aluno, um cavalo e uma carroça
cheia de papelão
O ganha pão de um menino transformado em homem

Era apenas um aluno, distorção idade-ano
estudava no quarto ano fundamental

Era apenas um aluno
quinze anos
Ensinando o fundamental da vida
[a sobrevivência]
Na falta da infância
das letras
da família
da comida

Seguia roto nos descaminhos da vida
Gritou por mim: - professor!
Lembrei do dia em que pediu para repetir o suco
Poucas goiabas naquela merenda esquálida
E teve como resposta uma negativa seca
Tão esvaziada quanto seu estômago

Era mais um aluno que ensaiava durante as aulas
Capoeira, mata-leão, golpes afins
Com o objetivo de combater o aparelho repressivo

Não me caberia repreendê-lo
tornei-me seu discípulo
nesse árdua batalha pela sobrevivência


18.4.15

Gole

Vou lutar até o gim
Digo
Até o fim

Ou melhor
Até o último gole

Desta garrafa de mim 

4.4.15

Exoneração

Não bebo
Não fumo
Só transo com camisinha do SUS
No almoço, ovo com cuscuz
[orgânico]

Carro velho quitado
Casa do Vovô
Com teto, telhado e sem dívidas

Não paro em bares
Mergulho de graça
No profundo azul do mar

Tuas ameaças não abalam
Meus ideais
Não sofro do fetiche da mercadoria

"Exonere-me covarde
Você vai demitir apenas um homem!"

26.3.15

Régua



Do lado esquerdo do zero
Existe o menos um
Menos dez
Menos mil
[infinitamente]

Quem apenas começou do zero
Nunca vai compreender o regozijo
[e a dor]
De recomeçar do menos cinco mil e um

11.3.15

Refeito

Às vezes esqueço quem sou
O que fiz
O que sonhei

Aguardo o tempo bom para plantar
Aro mais uma vez a terra
Jogo sementes para o ar
Espero as águas de março
E recomeço a germinar

8.3.15

Escola-Presídio

Quando vejo uma escola-presídio
Lembro da minha infância com parquinho
Banho de sol e quadra esportiva

Mesmo com tantas regalias não passei incólume
A escola deixou marcas, edemas e traumas

Penso nas crianças da escola-presídio
Sem direito a intervalo
Dez minutos para engolir a merenda

Liberdade condicional às onze e ponto
Depois de uma manhã de trabalhos forçados
Em cubículos opacos

Ao lado da escola um presídio para adultos
Dedo em riste, o recado dado
"se não for um bom menino..."

A escola-presídio é uma incongruência da arquitetura educacional
É o dedo podre do Estado, carcomido,
Que aponta com firmeza para o caos

Ao lado crescem casebres, escabioses e cáries
Sorrisos e infâncias perfurados pelo descaso social

Urge a revolta, às vezes debelada pela escola,
Dizer em uníssono: libertem nossas crianças!

6.3.15

Classificados

Ofertas

Urgente. Ofereço-me para ler livros, horário comercial e não comercial, folgas quinzenais, salário a combinar, dedicação exclusiva.

4.3.15

Epifitismo ou A terceira capa do livro



(Para Engels e Guimarães Rosa)

Enraizado naquele lar saudoso
Emaranhou-se na terceira capa do livro

Na celulose dos romances, contos e poemas
Realizou o epífito com precisão
Meio homem, meio vegetal
Sem necessidades históricas, nem fisiológicas

Cumpriu com primazia o desfecho da ação política
O papel da transformação do macaco em homem
O papel da transformação do homem em literatura
Seu último e eterno prazer contumaz

24.2.15

Encomenda

Não escrevo por encomenda

A poesia para mim é como um raio
Incerto, catastrófico
Às vezes fatal

A poesia para mim é beligerante
Uma luta constante
Entre o que desejo e o real concreto

Não imagino poesias em livros
Com direitos reservados ao autor
Se não correm soltas
Se não podem ser modificadas
São prisões afônicas
Nunca poesias libertárias

18.1.15

Estrada


E essa estrada colorida
Levará sonhos carregados em mochilas
Paragens amarelas
Paisagens e amores
Caminhos que clamam por mudanças

Vai filho grita nessa tempestade
Ressoa que é preciso prosseguir
E que seja verde enquanto dure


27.11.14

Pieguice

Desculpem a pieguice
Se ainda choro
Pela morte do leiteiro

Desculpem a pieguice
Se ainda brado
Por camaradas imprescindíveis

Desculpem
Eu não sabia que violetas não se plantam
Que elas duram apenas três dias

Desculpem
Pensei que plantações de gente
Durassem a vida inteira

23.11.14

Violetas

Não há mais flor de mandacaru
Não há mais a menina que enjoa da boneca
As violetas não brotam mais
Plantaram sangue no chão da escola

Tudo seco, sem cheiro de flor
Tudo é dor neste pasto seco

Margaridas, Violetas, não violentas
Lutadoras, poetas, meninas
Sonhos que se foram

[Violentamente]

E mais que nunca precisamos plantar
Violetamente!

21.11.14

Moradias



Moradias?

Parecem caixões sem alças, torrando solenemente ao sabor do sol
Um mato rasteiro sobressai frente as agruras da vida daqueles que terão que se sujeitar a viver num lugar tão inóspito

Moradias?

Quede a praça, os banquinhos, os balanços, a rebeldia?
Quede o cheiro verde, as árvores, a escola, a infância?

Os caixões perfilados, opacos, sem flores, silenciam o lugar insalubre
Mais parece um enterro coletivo de gente soterrada pela exclusão

Aqui jaz a dignidade humana


20.11.14

Órbita

Na semana que num meteoro pousou um robô
Não consegui pousar em mim mesmo
Até parece que alguém me robou
Bateu minha carteira num planeta esmo

E meus vizinhos continuam brigando por migalhas
Enquanto 40 milhões de verde-amarelos planejam pousar em órbitas fora da fome
Orbitam sob o signo desconexo das metralhas
Olham para o céu com a cara de quem consome

E a tecnologia alcançou um meteoro, na mesa o cheiro de agrotóxicos, em algumas barrigas o cheiro da fome, nas urnas o engodo, nos esgostos políticos saltam aos olhos. Qual será o próximo planeta a ser descoberto?  

11.11.14

A(r)me

Arme-se contra o machismo
Arme-se no marxismo
Ame-se no existencialismo
Ame o comunismo
Ame o sismo
o abalo
o tiro
a ira
o id

Ame
ou
Arme

Mas não se esqueça de odiar o idiota capitalista

26.10.14

Domingo

Um leito viscoso corre sobre minha sombra denegrida. Encobre paisagens e desfruta do horror matinal.

Amanhã é domingo e este pasto seco deixado pelas larvas amorfas demorará a se reconstituir. Não há bom sujeito que dure sem ser tomado pelo ódio tenobroso desse rio imundo que deságua em mares infindos.

Os jornais e revistas desencontrados em bancas, antes explodidas pelos verdugos da morte, dilaceram a opinião coletiva. Não escuto ressoar o canto lírico do bem-te-vi, quedou mudo no pasto seco.

Meus olhos ardem, o horizonte ficou mais distante. Ainda não sei como irei transpor esse domingo pedregoso, mas há uma certeza dizendo que é preciso [...].

Mas não adianta. Carreatas, comícios e discursos, com volume acima da média, ensurdeceram a plateia. É preciso esperar a segunda-feira raiar.      

24.10.14

Guarida

E se eu for dar guarida a todos esses sentimentos que rasgam minha veste, seguirei nu, visivelmente tonto, esquálido e sem bússola. E se todas as propagandas fossem a pura verdade, se todas as eleições respeitassem a moral e se essa luta do bem contra o mal fosse a última fronteira norte-sul, eu estaria exilado do outro lado, bem distante desse maniqueísmo artificial, plantado justamente para crescer como folhas hidropônicas distantes da terra e sem o sabor gostoso daquele que veio da amálgama do húmus com a indignação verdejante.

22.10.14

Inerme

O sol esta manhã iluminou mais uma encruzilhada histórica
Releio notícias velhas tão novas que causam espanto
Inerme procuro nos autos mais e mais argumentos

Gente séria [e não tão séria] define o tom do debate
As ruas vazias estão cheias de santinhos que voam sem compromisso
As ruas vazias calam frente ao berro das urnas

Mais uma vez o santo demônio desintegra quem não crê no céu e no inferno
Milhões sangram e não são considerados válidos
Milhões estão em abstinência, são brancos, negros insatisfeitos, nulos pelo sistema

A ordem mundial segue [quase] incólume
Os bombardeios prosseguem, os trabalhadores explorados continuam cabisbaixos, a missa é pontual como sempre

O céu e o inferno definem como devemos agir
O outubro vermelho desbota-se num botão verde [encarnado de verdade]
Poemas sujos estão tão limpos que dão nojo

Jovens desconhecem os broches com a imagem de Vladimir
Tecem longos comentários
Afirmam ter tv, casa própria, iogurte
Chamam qualquer teoria de ortodoxa
E continuam gerando mais-valor de 8h às 18h

Chamam de sem fronteiras o ideário ianque
Os universitários sentados em privadas, reafirmam o pensamento dominante
As alianças espúrias, os velhos lobos no poder
Ladainhas do dia-a-dia

Mas amanhã vou para a rua, varrer santinhos do pau oco
Ovacionar a classe [deliberadamente] adormecida, combater a tragédia desse vazio eleitoral

Mesmo que o sol se ponha silencioso e recomece a cantilena noutro dia

15.10.14

Ímpeto

Portas entreabertas, bocas fechadas
Frestas de passagem, faces ocultas
E os desejos cálidos como um pôr do sol
Nublados por um dia eterno de chuva torrente

E este dilúvio arrasta tudo que está pela frente
Troncos, correntes, vontades, matilha
[coletivos]

Ficam entulhos, individualidades, fedor
Pensamentos obtusos e robustos
Ímpetos desajeitados, direita, ruas sem saída

E um maniqueísmo inveterado
Assiste o féretro passar
Dos sonhos que serão maculados
[e jogados em covas abertas]