(para João Cabral de Melo Neto)
O silêncio da não-poesia
me devora
Palavras não chegam
ao contrário
c o r r e m
Fogem de mim
Em vão suplico
oro
presto atenção nas músicas
leio poemas
masturbo livros
Não há gozo
só o silêncio vazio da não-poesia
(para João Cabral de Melo Neto)
O silêncio da não-poesia
me devora
Palavras não chegam
ao contrário
c o r r e m
Fogem de mim
Em vão suplico
oro
presto atenção nas músicas
leio poemas
masturbo livros
Não há gozo
só o silêncio vazio da não-poesia
Não tenho tempo para agruras
Nem para subjetividades
O menino pobre que puxa a carroça
Grita no meu pé de ouvido
Sigo descalço, humilde
Não sinto as trepidações do asfalto
Não sinto o cheiro ocre da latrina
Nem o gosto da miséria
O menino pobre que puxa a carroça
Vem puxar meu pé à noite
Não deixa que eu assista à minha série favorita
Sussurra que a vida não é ficção
Para onde vão os poemas?
Por quem os sinos dobram?
Por que a lápide está em branco?
Por que as beatas não estão rezando?
Não são perguntas
São retóricas
São resumos e histórias
São sentimentos histéricos
que batem à porta ao som da meia noite
Eu nasci para ser poeta
Morrer de fome pelos meus escritos
Morrer de amores pelas minhas dores
Eu nasci para ser poeta
Meia vida de inspiração
Meia dúzia de indignação
Eu nasci para ser poeta
Meia vida afinando letras
Meia vida tocando versos desafinados
Eu não nasci
Eu pari um poema
e abortei palavras
Eu não sou mais um garoto dos anos 80
Não bebo mais por esporte
Não cruzo mais a Epitácio Pessoa
Causando tormenta
Eu não sou mais meu próprio líder
Eu não transito mais na infinita Highway
Eu não uso óculos
E as meninas do Leblon olham pra mim
Eu não sou inútil
Mas continuo sem saber votar para presidente
Meu pulso não pulsa
E não sei mais falar em Õ Blésq Blom
Cadê o feliz aniversário
E os velhos da cidade?
Não tenho mais fixação por nada
Nem tenho mais sonhos (não vou te contar)
Não vejo mais miséria em qualquer parte
Nem as riquezas indiferentes
Deixei de amar os Beatles e os Rolling Stones
(E o Papa não é mais pop)
Kafka não quer mais ficar comigo
Nem encontro mais baratas na cozinha
Não tenho mais os discos do Sex Pistols
E agora sou amigo do Rei
Eu só quero mandar flores para o delegado
E perguntar Quem é você?
Nada mais do (Anjo) Gabriel
E a felicidade de matar o presidente
Não quero mais jogar polo aquático na cama
Usar cobertores como lençóis
Não quero mais comer as calcinhas bélicas da Kátia Flávia
Para não explodir o exocet e devastar os peixes voadores
Não puxo mais as barbas de Deus
Nem mando beijos pelo ar
Não cavalgo mais no meus desatinos
Muitos menos carrego balões pelo mar
Eu não sou mais um garoto latino-americano
Agora sou fã do vermelho, branco e azul
Não toco mais o blues do Baader-Meinhof
E não
leio mais as Veias Abertas da América (do Sul)
Circulo entre as quatro paredes do meu metro quadrado
O quarto de Van Gogh e suas proporções
A cela de Mandela e sua solidão
Tenho febre de liberdade
Tenho cores acinzentadas
Tenho o cheiro de uma solitária
O sol queima o black out que protege as manhãs
O café quente anuncia mais uma rotação do eixo central
Os livros empilhados são fiéis companheiros
Eu não uso black tie
Eu não rogo a deus uma prece
Eu não tenho mais um inimigo que se preze
A vida não é mais uma mistificação
Eu não sangro mais quando canto
Eu não sou mais um herói da resistência
Eu não sou mais meu próprio líder
Eu não sou mais um operário em construção
Eu sou apenas alguns metros quadrados
Cercado pelos meus restos mortais