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30.3.12

Vejo a unção dos enfermos da freira encapuzada
Junto ao mancebo
Enquanto um chapéu de couro atravessa a rua
Calçando alpercatas

Crianças no meio da rua, com suas fardas de escola pública
Parabólicas em frágeis telhados
Debruçadas em casa de pau a pique
Ou construídas por João de Barro

Silêncio total às seis da tarde
Pois a rádio poste recita Luiz Gonzaga
Chorando a Ave Maria

Não há cinema
Não há teatro
Não há Bolero de Ravel
Apenas o pôr-do-sol agonizante
Que queima a caatinga

Mas há pneus travestidos de traves
Que fazem a festa dos boleiros

Goleiros não há, apenas uma bola murcha
Chutada com o prazer de um gol em pleno Maracanã

Na manhã seguinte, segue o cortejo
Pois a unção dos enfermos
Era só para aliviar a alma dos que seguem
Sorrateiros atrás do seu destino

Sigo,
Cego,
Semi
nu,

[Quase não vejo felicidade]

Nesse deserto idiossincrático do resplandecer nordestino...

22.3.12

Microconto

Depois de alguns ensaios, crônicas e estradas percorridas, deparou-se com as placas de sinalização que avisavam que ele escrevia para ninguém.

6.12.11

Chuva de Verão


Esta chuva de verão inundou meu paladar
Afogou desejos de mudança
Inundou a vontade de ver neste ano
Um mundo brotar diferente

Esta chuva de verão inundou
Tantos amigos que agora eles pensam
“Que o melhor lugar do mundo é aqui e agora”

Esta chuva de verão
Inundou a Controladoria-Geral
E seus parcos funcionários
Fez correr solta a corrupção neste país

Esta chuva de verão inundou
As promessas feitas em janeiro
E encharcadas foram deixadas
Para janeiro próximo

Esta chuva de verão inundou
O olhar de muitos
Por isso nem todos verão
O raiar da liberdade

Esta chuva de verão inundou
Minha íris, fez lacrimejar
Meu olhos, gerou espasmos temporários
E fez a surtar a madrugada

31.10.11

Imperfeição filosófica


Para ela o mundo nasce na cabeça e vai para a realidade
Para ele o mundo nasce na realidade e vai para cabeça
Ela hegeliana
Ele marxista
Ela subjetiva
Ele objetivo
Ela condicionante
Ele determinante
Ela metafísica
Ele materialista
Ela perde tudo
Ele procura tudo
Ela pós-modernista
Ele modernista
E nesta luta dos contrários
Não há novidades teóricas conciliáveis

26.10.11

Trombose


Limpei os ácidos culturais graxos
As gorduras ideológicas saturadas
Cuspi a bílis da imposição
Vomitei os horrores da guerra
E os ataques radioativos [e cardíacos]
E ainda sofro com a trombose venosa profunda
Que entope meus desejos

13.10.11

Tempo vazio


Tentei encontrá-la no tempo vazio das palavras, mas os dias continuam cada vez mais distantes.

Assalto


Inerme ao assalto deixou que levassem sua identidade, desejos e amores.

Mobília


Ao término da mudança, depois que arrumou toda a mobília, percebeu que não havia mais espaço para os sonhos.

12.10.11

TV


Rompi definitivamente contigo
Não quero escutar tanta baboseira
Não quero saber dos teus ataques
Das vítimas desta manhã cinzenta

Não quero saber dos desfiles de moda
Ou da culinária atual
Não quero tanta informação vazia
Tanto discurso filtrado

Preciso desse silêncio, mudo
Preciso que nada fales
Melhor do que escutar
A posição de poucos

Não quero me desumanizar
Não quero ver a pilhagem dos mouros
Dourada por cenas românticas
Não quero ver os EUA dominar o mundo

Quero paz nesta manhã
O silêncio reflexivo
O bom livro matinal
O beijo do bem-te-vi sonoro

Quero você muda
Calada, encostada
Num canto frio de parede
De castigo eterno

Feliz Dia das Crianças?

Gurupá/PA

MicroConto da Vida


Ávida (pela) vida (entrou) (num) (beco) (sem) saída

18.9.11

Escaras contraditórias


Não tenho a pretensão de criar escaras
Nem sei do que elas se alimentam
Não sei se gostam do pus
Que goteja quando espremo
Meus sentimentos

Mas sei que quando escarro
Este ar verdejante
Tento transformar essa paisagem
[cinza]
Em momentos de paz

Culinária para um domingo sombrio


Receita de coração duro

Um quilo e meio de coração transplantado
Previamente esfolado em chão duro
Regado com um bom vinho seco
Acolhido por papel laminado
E tostado no forno a altas temperaturas

Acompanha todas as mazelas do mundo
Sirva quente num dia frio e calculista

19 brumário, face a face nasceu!


Na efusão de tantos sentimentos
A paz e a tranquilidade chegam perto
Quando me descubro sem espelhos
E olho atentamente a tua face

Olhos nos olhos, percebo a vida
Germinando
E compreendo que apenas reflito em tua íris

Sei que tu és parte
Indivisível dos meus sonhos
Movimento inquebrantável
E transição dialética
Materializada na categoria irrefutável
Da síntese: o novo supera o velho

O que não consigo compreender com exatidão
É o porquê de tanta dor
Quando estou longe de ti

15.9.11

Subjetividade


Peço vênia ao Karl
(e a todos aqueles que acreditam na organização coletiva)
Mas minha força política
Esvaziou-se frente aos meus dramas pessoais

13.9.11

Tempo eufórico


Lembro do tempo eufórico da militância política
Dos afazeres cotidianos
Das palestras sobre a dívida externa,
Reforma agrária e ALCA

Lembro do Chávez e do Evo
E recordo da pobreza aqui no Sul
Meu norte desejado

Agora me alcunham de anacrônico
Tempo parado
Finda militância
Tempo findo
Enterrado ao som fúnebre
Com direito à lápide grafada com letras garrafais:
“Aqui jaz, mas volto...”

3.9.11

Cria


Eu queria ser cria da Tribo
Éthnos
Eu queria ser cria da efusão musical do
Jaguaribe Carne
Eu queria ser cria da luta política
[Contra o Aumento das Passagens]
Eu queria ser cria da punheta
Batida no palco
Dos cânticos revolucionários dinâmicos
E estáticos

Eu apenas queria ser cria de quem eu quisesse
Sem amarras mordazes,
Sentinelas da descompaixão

Excrementos sonoros


Hediondos goles de excrementos alheios
Bifurcados em ares travestidos de sons puritanos
Confessam a sórdida volúpia de sermos inacabados
Entre ruídos e dores acéfalas
Respiro o gotejar pulsante do teu sangue rasteiro
Afogado entre sêmens, malgrado consórcio de querer desesperadamente
Romper hímens imaculados de orações bazófias e dogmáticas

Fritei minha carne nas guerrilhas sonoras
Onde a onça bebe água
E morri afogado no tempo histórico impaciente