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14.7.26

Microconto intimista

Eu que já fui Guevarista

Agora só quero sentimento hedonista

Não quero mais sentir a dor e a delícia de ser quem eu sou

Quero apenas ser cantor numa banda soul

14.3.26

Amar, verbo intransigente II

Eu amo

Tu amas

Ela ama

Nós amamos

Vós amais

Eles matam

Amar, verbo intransigente

Fui criado num ambiente saudável

Sempre na sala de estar com um sorriso amável


Nada de cozinha, pratos para lavar ou filhos para criar


Sempre na sala de estar e pronto para procriar


Assim aprendi a amar: brincando de pau duro, símbolo da minha masculinidade tóxica 


(escondendo minha fraqueza flácida)


Assim cresci, alimentado por poluções noturnas e desejo de posse


(escondendo minha ejaculação precoce)


Assim, aprendi a amar


Tudo em mim é amor:

beijo, atropelo, amputo


Não posso perder meu objeto, fico logo puto


Tudo em mim é amor:

beijo, atropelo, mato


Fico esperando o próximo ato


Tudo em mim é morte:

beijo, desejo, sexo


E assim, tornei-me homem,

sentimento varonil sem nenhum nexo

4.10.25

Incidente em Alhures

Para Érico Veríssimo


Meu coração está inçado de velhacarias

Apaixonado por LP's arranhados e imaturos


Saudoso do Carinhoso cantado por Betânia 

Tocado por uma vitrola num setembro obscuro


Coração achincalhado pelo tempo

Entupido por amores gordurosos 

Assoberbado por foras eloquentes 


Não mais bombeia sangue

Jorra gritos e gemidos

Range sons e mastiga com velhos dentes 


Entre encruzilhadas, artérias e ruas vazias

O mar vermelho viscoso é apenas um incidente


Meu coração, na verdade, deseja coonestar todas as atrocidades amorosas cometidas ao longo da vida

19.7.25

Escatologia

Este cérebro me domina

Faz galanteios e depois me abomina


Controla meus pensamentos 

Me faz surtar e depois reprime todos os acontecimentos 


Este cérebro é o morcego de Augusto

Surge, do nada, todo instante, não me deixa dormir o sono justo


Este cérebro sou eu, vil

Imaculado desejo, introspectivo e pueril


Este cérebro quer me dizer o que fazer, limpar a casa, assear o chão 

Dormir cedo, comprar o pão 


Este cérebro nada mais é que o desejo de ser eterno, enquanto dure

Ser imoral, vaidoso, prepotente e que todo tempo jure


Mas ele sabe que é temporal

Pois ateu sem porta sabe que vai ter um destino imoral

27.6.25

Travessuras de uma menina má

Ela já havia avisado que era uma menina má
ao estilo Vargas Llosa
e eu ainda estava em “Se enamora”

Foi a primeira vez que me apaixonei

avisado de cara do terreno pantanoso que havia me metido

mesmo assim continuei acreditando na doçura da amora


Foram eternos “Ainda é Cedo”

meninas me ensinando quase tudo o que eu sei

levando surras de noites e mais noites de verão


Lutei contra a crosta irascível que se formava

escutava músicas de amor até perder o medo

tateava a menina má em esquinas inabitáveis


Virei um reprovado contumaz

vendendo flores mortas

e ensinando meu filho lições incabíveis

9.1.25

Manifesto Parahyba

Sou o único Paraibano nascido em Recife

Tenho sangue mestiço, mameluco do leão do norte

Mergulho em corais e arrecifes


Sou o único Paraibano nascido em Recife

Por isso, não acredito que o mundo surgiu no Marco Zero

Sou mais os bondes do Ponto de Cem Réis


Mordo tubarão a grito na praia de Boa Viagem

Mas prefiro um banho tranquilo em Coqueirinho


Sou Ariano às avessas, pernambucano desnaturado

Não nasci no Palácio e tomei rumo

Li o Auto, mas agora releio Torto Arado


Não ostento o Galo, passo carnavais com as Muriçocas

Não faço rinha com quem é o maior do mundo

Gosto mesmo é de carne seca com paçoca


Não chio para mostrar o amor pelo (e)sport(e), nem tenho time fora de série

Não vou aos estádios aos domingos

Nem escondo minhas intempéries 


Sou o único Paraibano nascido em Recife

Filho de Das Neves e Frederico, na luta por seu nome sedimentado

Sem essa dos Cavalcanti, quero mesmo minha Parahyba grafada com ypsilone

6.12.24

Canção

 🎼


Eu prefiro ficar com esta canção para sempre


Cravejada no meu corpo

como uma marca indelével 


Como uma memória afetiva leve


Ela me faz atravessar paredes

chorar sem lágrimas


Voar mundo afora com minha azul rede


Mesmo que minha mesa esteja vazia, haverá sempre pão


Mesmo que  seque meu coração

nos dias de sol intenso, haverá sementes


Mesmo na solidão da partida

haverá uma plateia cheia de gente


que um dia regamos em nosso jardim  😍

20.5.24

Vulnerabilidade

Somente quando fiz dezoito anos

É que entendi que o tempo é relativo

Depende da vulnerabilidade de cada um


Na casa da então namorada

o mês era medido pelo queijo coalho

Bem pesado, um quilo, um pouco mais

e a luta para durar o mês


Triste quando era de trinta e um dias

o sufoco era maior


Felicidade plena apenas uma vez por ano

mais um motivo para reverenciar o carnaval


Demorei muito para compreender a pobreza e seus desenganos

Assim como aquela família demorava para deglutir aquele queijo sem sal

17.3.24

Ogivas

A ogiva do senhor da guerra não parece uma vagina
Parece um pau ereto

Não tem clitóris, apenas glande

Não é simpático com a vida
Deseja a morte de todos

Símbolo fálico da vitória pírrica
A paz dos túmulos desejada

Putin, Biden e ogivas, não rimam com vaginas

Vinícius nos perdoe

Rosas não rimam com ogivas

O cravo de Hiroshima deveria ser a licença poética

12.2.24

Sentido

(para A.B.)


A vida não faz mais sentido

Não há mais encartes de LPs

comprados na Caverna Discos


Não há mais domingos na banca de revista

hábito comezinho que eu realizava com meu pai


A vida não faz mais sentido

Não recebo mais cartas

Nem frequento feiras de filatelia


Não encontro jornais impressos 

muito menos a crônica de F. Pereira da Nóbrega


A vida não faz mais sentido

Nunca mais datilografei um texto

e muito menos os tabloides publicaram a minha opinião


Não há mais escritos de Arthur Boka

apenas a crítica roedora dos ratos


A vida não faz mais sentido

A Caros Amigos acabou

só restou a Piauí

que de nordestina pouco tem


Não há mais como colecionar cartões

 telefônicos

Muito menos fichas DDD


Entrego meus sentidos a essa falta de sentido...

11.2.24

Morte e vida do poema

Poevida

             Poemeu

                          Poeteu

                                     Poenosso

                                               Poemorto

Poemorto (2)

Quando eu morrer, por favor

Preservem a cama que eu dormia

Deixem os óculos em cima da escrivaninha

Indiquem aos turistas fazer visitas à luz do dia


Quando eu morrer, por favor

Empalhem os animas de minha idolatria

Exponham todas as minhas alvissarias

Mostrem todos os caminhos de onde eu vinha


E não esqueçam de apagar os poemas do tempo da infancia

Manifesto 150tão

Já sinto o peso do tempo

Pesa mais que mil elefantes

Porém, é mais leve

que os corações valentes


Por isso, comemoro o sesquicentenário

Vivi três vezes mais que mereci

Vesti camisa de revolucionário

Nunca orei em sinagogas

Agora tenho a cara de otário


Perdi amigos, sofri e chorei

Por isso, comemoro o sesquicentenário

É muita história para contar

Muitos poemas que servem para limpar pratos 

Muita música para cantar apenas o relicário


Foram tantos planos

tantas agendas preenchidas

Por isso, comemoro o sesquicentenário

Minha cara de maracujá

Não permite comemorar o cinquentenário


Estou saciado, comi a vida e lambi as beiras

Por isso, aos cinquenta comemoro o sesquicentenário

Sinto-me completo, cheio de ar

Apesar de sentir falta de um ovário

Painho 85


¹⁶ ⁰¹ ¹⁹³⁹ —


A sexualidade sempre esteve presente na vida do meu pai.


Quando perguntado qual atividade física realizava, sempre respondia:


- sexo, três vezes por semana;


Quando perguntado como gostaria de morrer, sempre respondia:


- durante a relação sexual;


Infelizmente ele não conseguirá realizar tamanho desejo.


Serei mais objetivo no meu leito de morte:


- desejo morrer recitando, apenas, poemas.

Poemorto




Estive em Curitiba,

              mas não vi o Leminski

Nem vivo, nem morto

              apenas fachada

Parece que Curitiba

              não tem poeta, nem porto

8.1.24

Corpos nus

 Corpos nus


Eu não quero teu seio

Não quero tua bunda

Não quero (teu) sexo


Eu só quero nossos corpos nus na beira da cama


Quero brochar infinitamente 

para poder desabrochar todo o sentimento que escorre do meu talo (flácido)


Ao som de super-homem

(a canção)

Minha porção, desabrocha

(G)calada então, ficaria assim temerosa


Ao fim da cerimônia de acertos

Gozaríamos em uníssono

Ao som da sinfonia estelar

Corpos nus

Numa noite, assexuada, de sono

17.7.23

Canção para um amigo a espera da cura

Eu sei que sigo o meu caminho

Enquanto você espera pela cura

Mas isso não quer dizer que deixei de emanar, diuturnamente, meus xamãs e orixás


Eu ateu, oro por ti todos os dias

Vibro orações e oxalás


Eu sei que enquanto você espera pela cura

Lê minhas digressões poéticas

E se pudesse ler minha mente

saberia que refaço nossos encontros todos os momentos


Enquanto você espera pela cura

Tiro as lições que aprendi contigo

Relembro o silêncio em sala de aula

Danço as músicas que você cantou

Navego pelos mares que gargalhamos

Escuto canções que você musicou


Enquanto você espera pela cura

Revejo choros e lances de xadrez


Amigos em comum aparecem a todo momento

como uma procissão em prece

Como um bom presságio

Nesta passagem chamada vida

Ar Dor

 Meu médico falou que devo parar de escrever

- Palavras tóxicas vão te matar;

Diz ele...

Mal sabe que escritos podem ser armas brancas

perfurocortantes


Inalações tóxicas são mais brandas que minhas ilações

Palavras mordazes mordem mais que ladram

Palavras malditas têm mais chumbo que as tintas de Portinari


Por isso, escrevo com ardor

Preciso bater metas, correr ligeiro

gerar dor

Cult

Sim, eu quero ser Cult

Andar a pé pela escadaria Selerón

Assistir Godard e fingir que tudo entendi


Mirar Monet, Picasso e Van Gogh

Passar horas com os Retirantes

Subir o Morro Dona Marta lendo a revista Vogue


Sim, eu quero ser Cult

Quero ler os livros da Biblioteca Nacional

E toda a coleção da National Geographic


Ouvir Bach, Bethoven e Villa-Lobos

Jogar xadrez nas horas vagas

E desafiar mágicos cubos


Quero ser Cult para poder desafiar o ignorante

Conhecer a História para não repetir o passado

Quero a ciência para poder compreender o mastodonte


Quero ser Cult para me armar até os dentes

Ter conhecimentos e listas

E lutar contra os fascistas