Eu que já fui Guevarista
Agora só quero sentimento hedonista
Não quero mais sentir a dor e a delícia de ser quem eu sou
Quero apenas ser cantor numa banda soul
Eu que já fui Guevarista
Agora só quero sentimento hedonista
Não quero mais sentir a dor e a delícia de ser quem eu sou
Quero apenas ser cantor numa banda soul
Fui criado num ambiente saudável
Sempre na sala de estar com um sorriso amável
Nada de cozinha, pratos para lavar ou filhos para criar
Sempre na sala de estar e pronto para procriar
Assim aprendi a amar: brincando de pau duro, símbolo da minha masculinidade tóxica
(escondendo minha fraqueza flácida)
Assim cresci, alimentado por poluções noturnas e desejo de posse
(escondendo minha ejaculação precoce)
Assim, aprendi a amar
Tudo em mim é amor:
beijo, atropelo, amputo
Não posso perder meu objeto, fico logo puto
Tudo em mim é amor:
beijo, atropelo, mato
Fico esperando o próximo ato
Tudo em mim é morte:
beijo, desejo, sexo
E assim, tornei-me homem,
sentimento varonil sem nenhum nexo
Para Érico Veríssimo
Meu coração está inçado de velhacarias
Apaixonado por LP's arranhados e imaturos
Saudoso do Carinhoso cantado por Betânia
Tocado por uma vitrola num setembro obscuro
Coração achincalhado pelo tempo
Entupido por amores gordurosos
Assoberbado por foras eloquentes
Não mais bombeia sangue
Jorra gritos e gemidos
Range sons e mastiga com velhos dentes
Entre encruzilhadas, artérias e ruas vazias
O mar vermelho viscoso é apenas um incidente
Meu coração, na verdade, deseja coonestar todas as atrocidades amorosas cometidas ao longo da vida
Este cérebro me domina
Faz galanteios e depois me abomina
Controla meus pensamentos
Me faz surtar e depois reprime todos os acontecimentos
Este cérebro é o morcego de Augusto
Surge, do nada, todo instante, não me deixa dormir o sono justo
Este cérebro sou eu, vil
Imaculado desejo, introspectivo e pueril
Este cérebro quer me dizer o que fazer, limpar a casa, assear o chão
Dormir cedo, comprar o pão
Este cérebro nada mais é que o desejo de ser eterno, enquanto dure
Ser imoral, vaidoso, prepotente e que todo tempo jure
Mas ele sabe que é temporal
Pois ateu sem porta sabe que vai ter um destino imoral
Foi a primeira vez que me apaixonei
avisado de cara do terreno pantanoso que havia me metido
mesmo assim continuei acreditando na doçura da amora
Foram eternos “Ainda é Cedo”
meninas me ensinando quase tudo o que eu sei
levando surras de noites e mais noites de verão
Lutei contra a crosta irascível que se formava
escutava músicas de amor até perder o medo
tateava a menina má em esquinas inabitáveis
Virei um reprovado contumaz
vendendo flores mortas
e ensinando meu filho lições incabíveis
Sou o único Paraibano nascido em Recife
Tenho sangue mestiço, mameluco do leão do norte
Mergulho em corais e arrecifes
Sou o único Paraibano nascido em Recife
Por isso, não acredito que o mundo surgiu no Marco Zero
Sou mais os bondes do Ponto de Cem Réis
Mordo tubarão a grito na praia de Boa Viagem
Mas prefiro um banho tranquilo em Coqueirinho
Sou Ariano às avessas, pernambucano desnaturado
Não nasci no Palácio e tomei rumo
Li o Auto, mas agora releio Torto Arado
Não ostento o Galo, passo carnavais com as Muriçocas
Não faço rinha com quem é o maior do mundo
Gosto mesmo é de carne seca com paçoca
Não chio para mostrar o amor pelo (e)sport(e), nem tenho time fora de série
Não vou aos estádios aos domingos
Nem escondo minhas intempéries
Sou o único Paraibano nascido em Recife
Filho de Das Neves e Frederico, na luta por seu nome sedimentado
Sem essa dos Cavalcanti, quero mesmo minha Parahyba grafada com ypsilone
🎼
Eu prefiro ficar com esta canção para sempre
Cravejada no meu corpo
como uma marca indelével
Como uma memória afetiva leve
Ela me faz atravessar paredes
chorar sem lágrimas
Voar mundo afora com minha azul rede
Mesmo que minha mesa esteja vazia, haverá sempre pão
Mesmo que seque meu coração
nos dias de sol intenso, haverá sementes
Mesmo na solidão da partida
haverá uma plateia cheia de gente
que um dia regamos em nosso jardim 😍
Somente quando fiz dezoito anos
É que entendi que o tempo é relativo
Depende da vulnerabilidade de cada um
Na casa da então namorada
o mês era medido pelo queijo coalho
Bem pesado, um quilo, um pouco mais
e a luta para durar o mês
Triste quando era de trinta e um dias
o sufoco era maior
Felicidade plena apenas uma vez por ano
mais um motivo para reverenciar o carnaval
Demorei muito para compreender a pobreza e seus desenganos
Assim como aquela família demorava para deglutir aquele queijo sem sal
(para A.B.)
A vida não faz mais sentido
Não há mais encartes de LPs
comprados na Caverna Discos
Não há mais domingos na banca de revista
hábito comezinho que eu realizava com meu pai
A vida não faz mais sentido
Não recebo mais cartas
Nem frequento feiras de filatelia
Não encontro jornais impressos
muito menos a crônica de F. Pereira da Nóbrega
A vida não faz mais sentido
Nunca mais datilografei um texto
e muito menos os tabloides publicaram a minha opinião
Não há mais escritos de Arthur Boka
apenas a crítica roedora dos ratos
A vida não faz mais sentido
A Caros Amigos acabou
só restou a Piauí
que de nordestina pouco tem
Não há mais como colecionar cartões
telefônicos
Muito menos fichas DDD
Entrego meus sentidos a essa falta de sentido...
Quando eu morrer, por favor
Preservem a cama que eu dormia
Deixem os óculos em cima da escrivaninha
Indiquem aos turistas fazer visitas à luz do dia
Quando eu morrer, por favor
Empalhem os animas de minha idolatria
Exponham todas as minhas alvissarias
Mostrem todos os caminhos de onde eu vinha
E não esqueçam de apagar os poemas do tempo da infancia
Já sinto o peso do tempo
Pesa mais que mil elefantes
Porém, é mais leve
que os corações valentes
Por isso, comemoro o sesquicentenário
Vivi três vezes mais que mereci
Vesti camisa de revolucionário
Nunca orei em sinagogas
Agora tenho a cara de otário
Perdi amigos, sofri e chorei
Por isso, comemoro o sesquicentenário
É muita história para contar
Muitos poemas que servem para limpar pratos
Muita música para cantar apenas o relicário
Foram tantos planos
tantas agendas preenchidas
Por isso, comemoro o sesquicentenário
Minha cara de maracujá
Não permite comemorar o cinquentenário
Estou saciado, comi a vida e lambi as beiras
Por isso, aos cinquenta comemoro o sesquicentenário
Sinto-me completo, cheio de ar
Apesar de sentir falta de um ovário
¹⁶ ⁰¹ ¹⁹³⁹ —
A sexualidade sempre esteve presente na vida do meu pai.
Quando perguntado qual atividade física realizava, sempre respondia:
- sexo, três vezes por semana;
Quando perguntado como gostaria de morrer, sempre respondia:
- durante a relação sexual;
Infelizmente ele não conseguirá realizar tamanho desejo.
Serei mais objetivo no meu leito de morte:
- desejo morrer recitando, apenas, poemas.
Estive em Curitiba,
mas não vi o Leminski
Nem vivo, nem morto
apenas fachada
Parece que Curitiba
não tem poeta, nem porto
Corpos nus
Eu não quero teu seio
Não quero tua bunda
Não quero (teu) sexo
Eu só quero nossos corpos nus na beira da cama
Quero brochar infinitamente
para poder desabrochar todo o sentimento que escorre do meu talo (flácido)
Ao som de super-homem
(a canção)
Minha porção, desabrocha
(G)calada então, ficaria assim temerosa
Ao fim da cerimônia de acertos
Gozaríamos em uníssono
Ao som da sinfonia estelar
Corpos nus
Numa noite, assexuada, de sono
Eu sei que sigo o meu caminho
Enquanto você espera pela cura
Mas isso não quer dizer que deixei de emanar, diuturnamente, meus xamãs e orixás
Eu ateu, oro por ti todos os dias
Vibro orações e oxalás
Eu sei que enquanto você espera pela cura
Lê minhas digressões poéticas
E se pudesse ler minha mente
saberia que refaço nossos encontros todos os momentos
Enquanto você espera pela cura
Tiro as lições que aprendi contigo
Relembro o silêncio em sala de aula
Danço as músicas que você cantou
Navego pelos mares que gargalhamos
Escuto canções que você musicou
Enquanto você espera pela cura
Revejo choros e lances de xadrez
Amigos em comum aparecem a todo momento
como uma procissão em prece
Como um bom presságio
Nesta passagem chamada vida
Meu médico falou que devo parar de escrever
- Palavras tóxicas vão te matar;
Diz ele...
Mal sabe que escritos podem ser armas brancas
perfurocortantes
Inalações tóxicas são mais brandas que minhas ilações
Palavras mordazes mordem mais que ladram
Palavras malditas têm mais chumbo que as tintas de Portinari
Por isso, escrevo com ardor
Preciso bater metas, correr ligeiro
gerar dor
Sim, eu quero ser Cult
Andar a pé pela escadaria Selerón
Assistir Godard e fingir que tudo entendi
Mirar Monet, Picasso e Van Gogh
Passar horas com os Retirantes
Subir o Morro Dona Marta lendo a revista Vogue
Sim, eu quero ser Cult
Quero ler os livros da Biblioteca Nacional
E toda a coleção da National Geographic
Ouvir Bach, Bethoven e Villa-Lobos
Jogar xadrez nas horas vagas
E desafiar mágicos cubos
Quero ser Cult para poder desafiar o ignorante
Conhecer a História para não repetir o passado
Quero a ciência para poder compreender o mastodonte
Quero ser Cult para me armar até os dentes
Ter conhecimentos e listas
E lutar contra os fascistas