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29.7.11

Refém

Refém de um impulso
De seus próprios erros
Refém por amar demais
Por se entregar demais
Refém daquilo que já nem sei

Sem resgate, sem fronteiras
Sem poder gozar no final
Sem um pingo de amargura

Amigos

Perde-se uma batalha
Recobra-se a luta
Ergue-se a cabeça
E segue em frente

Perde-se um amigo
Lamento eterno
Dor profunda
Irreparável

Dor necessária
Para aprender
Que amigos vão e vem
Sem parar

Silêncio Total

Silêncio total
Na antessala desarrumada
Nas redes sociais devastadoras
Da privacidade

Silêncio total
Nos desentendimentos colossais
Das amizades superficiais

Silêncio total
Na luta inglória
Da desorganização política
Nas subjetividades destruidoras
Dos sonhos coletivos

Silêncio total
Na construção dos sentidos poéticos
Frente a irremediável situação de caos
[Político-econômico]

Silêncio total
Com febre de quarenta graus
Que aquartela desejos de continuar escrevendo
... sobre a vida

20.6.11

Morto e sepultado

O autor destes escritos está morto
Assim permito ao leitor vagar, divagar
E reescrevê-los

Permito ao leitor sempre pensar que escrevo para ele
E quase sempre escrevo pensando em alguém
Mas, de maneira recorrente, este alguém
Sou eu mesmo:
Morto e sepultado!

Batismo de mar


Não posso prever quantos mares iremos aventurar
E se um dia, eu já um vetusto senhor,
Poderei compartilhar conselhos

Imagens críveis
Só aquelas por hoje registradas
E nada mais posso desejar

Uma semana pode representar
Uma vida por completo
Dias brancos, noites belas
Quantos sonos em meu peito
Quantas sestas tranquilas ao meu lado?

Não posso me dar o luxo de especular o futuro
Resta-me apenas contabilizar as horas
E espremer cada segundo que tenho contigo
Para que ele se torne
Um dia eterno

Vida

Em meio ao Vesúvio
Desta lida inglória
Retenho-me intimorato
Aos contra tempos desta passagem
Chamada vida

Bulimia sexual

Encetado por caminhos
Inexplicavelmente inusitados
Rebelou-se contra a tradição
[Família-Propriedade]
Escalou montanhas insólitas
E deparou-se com a rapidez das atitudes

Antes processos de longa data
Vazão histórica e consuetudinária
Agora ações imediatas
Sem a mínima necessidade
Das essenciais preliminares

Deparou-se com a beleza mórbida
Da burguesia
E suas excrescências
Desligou-se das vestes do puritanismo
E atirou-se lépido aos ditames da nova ordem

Deparou-se nu, esquálido
Rente a si mesmo
E vomitou vertiginosamente
Como num ataque grosseiro
De bulimia sexual

16.6.11

Papel sem pauta

Minha vida virou um papel sem pauta
De sentimentos depurados
Imiscuídos num vazio transgressor
Da lógica cartesiana de uma dita igreja

Não distingo mais imposição cultural
Com o desejo de liberdade aparente
Não assisto mais TV
E compreendo melhor o mundo
E o sentimento alheio

31.5.11

Suplantar / Plantar

Suplantar este ódio aparente
Plantando entre crostas de azedume
É tarefa cotidiana daqueles que sonham
Unir uma classe trabalhadora
Impregnada pelos dissabores constantes
Da inconstância azeda do individualismo

Plantar sementes escassas de altruísmo
Em terrenos áridos e ardilosos
Neste pântano cinzento
É desejar suplantar essa carapaça
Artificial
Revestida por máscaras
Indevidamente colocadas em nossas faces
Que encobrem a beleza fulgurante
Da palavra liberdade!

26.5.11

Clandestinidade

Depois de tantas decepções amorosas resolveu alistar-se ao exército rebelde e lutar clandestinamente pelo universo beligerante da solidão.

25.5.11

Em forma de "C"


Seis meses e meu tronco transformou-se num “C”
Envergadura sintomática do desejo peremptório
De te abraçar por completo

Encostado em meu peito
Sinto a planura do teu carinho
Reverberar feito ondas intermitentes
Que geram sentimentos
Nunca antes aflorados

Em “C” acolho teu rosto em meu peito
Com a certeza que escutas as batidas
Do meu coração
Expressando, repetidamente,
- te amo, te amo, te amo...

23.5.11

Ficção


Depois de nossa conversar observo para onde vais. Fixo meus olhos nas esquinas, corro para não te perder de vista e percebo que fazes parte do meu universo ficcional.

16.5.11

Cacos de vida

Desceu a alameda num dia chuvoso à procura dos cacos de vida estraçalhados, juntando os pedaços do seu futuro e remoendo preces.
(Microconto para o twitter)

Rabiscos Marginais

Um reboco mal feito em casa, "um pincel na mão, uma ideia na cabeça"

15.5.11

Uga-uga ou exoneração

Finalmente o sonho concretizado. Anos de estudo, dedicação e aprimoramento para enfim conseguir um lugar na academia. Ao chegar, cheio de sonhos e desejos, soube logo que lá habitava um povo bárbaro que há alguns anos atormentavam todos aqueles que não seguissem as suas designas. Recomendaram andar nos trilhos e não caminhar pela aridez dos pântanos cinzentos evitando contradizer os bárbaros de olfato apurado – todos os seus movimentos estariam a partir daquela data rastreados.

Inicialmente uma catatonia tomou conta do seu semblante, mas prosseguiu a caminhada na instituição, afinal o desejo peremptório de ministrar aulas, pesquisar e compartilhar saberes com a comunidade era algo já amadurecido e presente na sua carreira profissional.

Aos poucos as denúncias se avolumavam e as ações concretas dos lacaios vinculados aos bárbaros apontavam que aquele ambiente, antes idílico, apresentava-se inóspito e repleto de veleidades.
Todo dia acordava incomodado com um ar de indignação que tomava seu fôlego frente às inúmeras injustiças e ações de proselitismo que encharcavam seu ambiente de trabalho. Resolveu, portanto, desafiar os bárbaros!

Percorreu inúmeras vielas, ruelas, caminhos estreitos, muitas vezes sozinho, outras vezes acompanhado. Correu inúmeros riscos, mas sempre com a altivez e perseverança dotadas de um calor teórico que construiu ao longo de muitos anos de estudo de um tal velho barbudo.

Num dessas andanças deparou-se com uma tribo de bárbaros. Foi cercado, amordaçado e questionado: “uga-uga ou exoneração?”. Sem excitar, apesar do desconhecimento do teor da primeira opção, respondeu: “uga-uga”.

Os bárbaros, com anos de experiência maléfica, torturam, assediaram, vilipendiaram e soltaram o professor. Achavam que depois desta ação de opção maniqueísta, haviam liquidado mais um opositor que se negava a ser cooptado ou reduzido ao silêncio.

Mesmo fragilizado após a onda de tortura, continuou a caminhada, pois sua posição ideológica berrava mais forte, convicta e espelhada no sangue e no suor de tantos outros companheiros de luta.

A partir de então, todas as noites, seus algozes apareciam como redemoinhos devastadores em seus sonhos; Entrementes todas as imagens de injustiça e aberrações bradavam ao seu lado diuturnamente, implicando com o senso de liberdade que pedia solenemente que não desistisse da empreitada.

Seguiu as ordens da sua consciência. Continuou caminhando naquele terreno árido e perverso. Por vezes sentia a compreensão de alguns, por outro lado, a solidão da coerência adormecida de muitos.
Certo dia, numa dessas aventuras quase quixotesca, foi mais uma vez capturado pelos bárbaros. Temia pela pergunta, inexoravelmente vociferada pela alcateia: “uga-uga ou exoneração?”.

Agora já sabedor do significado de tão estranha expressão e suprimido de qualquer condição psicológica de enfrentar (com aquelas armas, tão desiguais) o inimigo, respondeu: “exoneração”.

Os bárbaros perplexos com a resposta fitaram o líder maior, até então blindado pelo grupo. A ordem do chauvinista, repleta de sadismo, reflete o nível de maldade do dito poder encarnado e mofado nas entranhas da instituição há mais de uma década:

- Uga-uga primeiro!

10.5.11

Inocência imberbe

Meu único desejo agora
É poder me agarrar na tua infância
E escapar deste mundo hostil
Deitar na tua inocência imberbe
E tecer sonhos a fio

Construir fortalezas inabaláveis
Colher todos os grãos das indelicadezas
E plantar teu suspiro pueril
Em todas as áreas cultiváveis
Desse imenso [e devastado]
Brasil