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9.1.25

Manifesto Parahyba

Sou o único Paraibano nascido em Recife

Tenho sangue mestiço, mameluco do leão do norte

Mergulho em corais e arrecifes


Sou o único Paraibano nascido em Recife

Por isso, não acredito que o mundo surgiu no Marco Zero

Sou mais os bondes do Ponto de Cem Réis


Mordo tubarão a grito na praia de Boa Viagem

Mas prefiro um banho tranquilo em Coqueirinho


Sou Ariano às avessas, pernambucano desnaturado

Não nasci no Palácio e tomei rumo

Li o Auto, mas agora releio Torto Arado


Não ostento o Galo, passo carnavais com as Muriçocas

Não faço rinha com quem é o maior do mundo

Gosto mesmo é de carne seca com paçoca


Não chio para mostrar o amor pelo (e)sport(e), nem tenho time fora de série

Não vou aos estádios aos domingos

Nem escondo minhas intempéries 


Sou o único Paraibano nascido em Recife

Filho de Das Neves e Frederico, na luta por seu nome sedimentado

Sem essa dos Cavalcanti, quero mesmo minha Parahyba grafada com ypsilone

6.12.24

Canção

 🎼


Eu prefiro ficar com esta canção para sempre


Cravejada no meu corpo

como uma marca indelével 


Como uma memória afetiva leve


Ela me faz atravessar paredes

chorar sem lágrimas


Voar mundo afora com minha azul rede


Mesmo que minha mesa esteja vazia, haverá sempre pão


Mesmo que  seque meu coração

nos dias de sol intenso, haverá sementes


Mesmo na solidão da partida

haverá uma plateia cheia de gente


que um dia regamos em nosso jardim  😍

20.5.24

Vulnerabilidade

Somente quando fiz dezoito anos

É que entendi que o tempo é relativo

Depende da vulnerabilidade de cada um


Na casa da então namorada

o mês era medido pelo queijo coalho

Bem pesado, um quilo, um pouco mais

e a luta para durar o mês


Triste quando era de trinta e um dias

o sufoco era maior


Felicidade plena apenas uma vez por ano

mais um motivo para reverenciar o carnaval


Demorei muito para compreender a pobreza e seus desenganos

Assim como aquela família demorava para deglutir aquele queijo sem sal

17.3.24

Ogivas

A ogiva do senhor da guerra não parece uma vagina
Parece um pau ereto

Não tem clitóris, apenas glande

Não é simpático com a vida
Deseja a morte de todos

Símbolo fálico da vitória pírrica
A paz dos túmulos desejada

Putin, Biden e ogivas, não rimam com vaginas

Vinícius nos perdoe

Rosas não rimam com ogivas

O cravo de Hiroshima deveria ser a licença poética

12.2.24

Sentido

(para A.B.)


A vida não faz mais sentido

Não há mais encartes de LPs

comprados na Caverna Discos


Não há mais domingos na banca de revista

hábito comezinho que eu realizava com meu pai


A vida não faz mais sentido

Não recebo mais cartas

Nem frequento feiras de filatelia


Não encontro jornais impressos 

muito menos a crônica de F. Pereira da Nóbrega


A vida não faz mais sentido

Nunca mais datilografei um texto

e muito menos os tabloides publicaram a minha opinião


Não há mais escritos de Arthur Boka

apenas a crítica roedora dos ratos


A vida não faz mais sentido

A Caros Amigos acabou

só restou a Piauí

que de nordestina pouco tem


Não há mais como colecionar cartões

 telefônicos

Muito menos fichas DDD


Entrego meus sentidos a essa falta de sentido...

11.2.24

Morte e vida do poema

Poevida

             Poemeu

                          Poeteu

                                     Poenosso

                                               Poemorto

Poemorto (2)

Quando eu morrer, por favor

Preservem a cama que eu dormia

Deixem os óculos em cima da escrivaninha

Indiquem aos turistas fazer visitas à luz do dia


Quando eu morrer, por favor

Empalhem os animas de minha idolatria

Exponham todas as minhas alvissarias

Mostrem todos os caminhos de onde eu vinha


E não esqueçam de apagar os poemas do tempo da infancia

Manifesto 150tão

Já sinto o peso do tempo

Pesa mais que mil elefantes

Porém, é mais leve

que os corações valentes


Por isso, comemoro o sesquicentenário

Vivi três vezes mais que mereci

Vesti camisa de revolucionário

Nunca orei em sinagogas

Agora tenho a cara de otário


Perdi amigos, sofri e chorei

Por isso, comemoro o sesquicentenário

É muita história para contar

Muitos poemas que servem para limpar pratos 

Muita música para cantar apenas o relicário


Foram tantos planos

tantas agendas preenchidas

Por isso, comemoro o sesquicentenário

Minha cara de maracujá

Não permite comemorar o cinquentenário


Estou saciado, comi a vida e lambi as beiras

Por isso, aos cinquenta comemoro o sesquicentenário

Sinto-me completo, cheio de ar

Apesar de sentir falta de um ovário

Painho 85


¹⁶ ⁰¹ ¹⁹³⁹ —


A sexualidade sempre esteve presente na vida do meu pai.


Quando perguntado qual atividade física realizava, sempre respondia:


- sexo, três vezes por semana;


Quando perguntado como gostaria de morrer, sempre respondia:


- durante a relação sexual;


Infelizmente ele não conseguirá realizar tamanho desejo.


Serei mais objetivo no meu leito de morte:


- desejo morrer recitando, apenas, poemas.

Poemorto




Estive em Curitiba,

              mas não vi o Leminski

Nem vivo, nem morto

              apenas fachada

Parece que Curitiba

              não tem poeta, nem porto

8.1.24

Corpos nus

 Corpos nus


Eu não quero teu seio

Não quero tua bunda

Não quero (teu) sexo


Eu só quero nossos corpos nus na beira da cama


Quero brochar infinitamente 

para poder desabrochar todo o sentimento que escorre do meu talo (flácido)


Ao som de super-homem

(a canção)

Minha porção, desabrocha

(G)calada então, ficaria assim temerosa


Ao fim da cerimônia de acertos

Gozaríamos em uníssono

Ao som da sinfonia estelar

Corpos nus

Numa noite, assexuada, de sono