Como barriga seca não dá sono
Lembrei do sabor do iogurte
Do sorvete mesclado
Pensei nos alunos da escola pública
Café preto e pão seco
Qual o sabor do iogurte para o cego paladar?
Como será imaginar o sabor de morango
Mesclado com iogurte batido?
Qual o sabor do vazio?
Café preto e pão seco
Que sabor tem?
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Preto, pobre, seco
Qual o sabor da desigualdade?
Pobre café preto seco
Rico morango batido
Sabor: desigualdade mesclada
12.6.17
5.6.17
Confabular (ou um manifesto Parahyba)
Em tempos em que revoluções
Se transformam em festas corriqueiras
Nossa busca pela formação
Em terra de mar de beiras
São armas de luta
Só nos resta confabular
Ir além mar
Conquistar os mundos
Pedir a cabeça de tantos imundos
Vamos confabular em todos os tempos
E espaços
Não vamos deixar nosso Centro morrer
Pois seremos o centro do nosso universo
Sem medo das balas nos nossos peitos de aço
Eu tu ele
Nós vós eles
Vamos confabular
Derrubar o ressurgimento do abacateiro
Não acataremos outros atos
Eu tu ele
Nós vós eles
Vamos confabular
Junho é uma criança
Que vai derrubar reis
Se transformam em festas corriqueiras
Nossa busca pela formação
Em terra de mar de beiras
São armas de luta
Só nos resta confabular
Ir além mar
Conquistar os mundos
Pedir a cabeça de tantos imundos
Vamos confabular em todos os tempos
E espaços
Não vamos deixar nosso Centro morrer
Pois seremos o centro do nosso universo
Sem medo das balas nos nossos peitos de aço
Eu tu ele
Nós vós eles
Vamos confabular
Derrubar o ressurgimento do abacateiro
Não acataremos outros atos
Eu tu ele
Nós vós eles
Vamos confabular
Junho é uma criança
Que vai derrubar reis
12.5.17
4.5.17
Babel
Minha cidade é uma Babel
Políticos e cidadãos não se entendemEscrevem leis que só ficam no papel
Minha cidade é uma Babel
Professores e alunos não se entendem
Parecem crianças no carrossel
Minha cidade é feita de Torres
Toletes empilhados como códigos
Em todo canto fedentina e odores
Cães, gatos, cavalos
Deixam suas marcas e seus sinais
Falam a mesma língua silenciosa
Cães, gatos, cavalos
Riscam o chão, em sinal de rebeldia
E enquanto homens, mulheres, crianças
Não se entendem
Esses seres inanimados constroem suas torres todos os dias
20.4.17
Vasto Mundo
Meu pai com Alzheimer
No alento da sua lucidez
Ao ver as cenas bélicas na TV:
Meu filho, ao longo dos meus 78 anos
Não houve um dia em que o mundo
não estivesse em guerra
Que o digam pai
As crianças em carne viva
Bombardeadas
Queimadas com armas químicas
O menino refugiado afogado
As cenas tristes em preto e branco
A Rosa de Hiroshima
O mundo esquálido
Sem rima
O mundo beligerante de Bush Bush Bush
E seus fanáticos sucessores
Bombas incendiando caveiras
Bush Bush Bush
Bombas promovendo coveiros
Bush Bush Bush
Não há saídas de emergência
Apenas bombas
Bush Bush Bush Bush
Entre os escombros
À direita
Urnas conservadoras
Explicações rarefeitas
Silogismos carentes de causa-efeito
Nas cabeças ocas
Pululam soluções rápidas
Bush Bush Bush
E assim se esvai a humanidade...
No alento da sua lucidez
Ao ver as cenas bélicas na TV:
Meu filho, ao longo dos meus 78 anos
Não houve um dia em que o mundo
não estivesse em guerra
Que o digam pai
As crianças em carne viva
Bombardeadas
Queimadas com armas químicas
O menino refugiado afogado
As cenas tristes em preto e branco
A Rosa de Hiroshima
O mundo esquálido
Sem rima
O mundo beligerante de Bush Bush Bush
E seus fanáticos sucessores
Bombas incendiando caveiras
Bush Bush Bush
Bombas promovendo coveiros
Bush Bush Bush
Não há saídas de emergência
Apenas bombas
Bush Bush Bush Bush
Entre os escombros
À direita
Urnas conservadoras
Explicações rarefeitas
Silogismos carentes de causa-efeito
Nas cabeças ocas
Pululam soluções rápidas
Bush Bush Bush
E assim se esvai a humanidade...
5.4.17
Vida Líquida
Para Baumann
A informação está muito diluída
(intervalos são mais ricos que o noticiário)
O leite está muito diluído
(coloquem água, já diziam os milicos de outrora)
A vida está muito diluída
Escorre fluída
facilmente pelo ralo
A informação está muito diluída
(intervalos são mais ricos que o noticiário)
O leite está muito diluído
(coloquem água, já diziam os milicos de outrora)
A vida está muito diluída
Escorre fluída
facilmente pelo ralo
30.1.17
Tropicana
Hotel Tropicana
Aqui almocei com meus avós, pais, irmã, tios e primos na década de 1980.
Por ironia do destino, 30 anos depois, adentrei no antigo hotel Tropicana já como Ocupação do Tijolonho Vermelho.
Convivi com algumas famílias, brinquei com as crianças, formamos até uma turma de alfabetização de Jovens e Adultos.
Vi cenas impactantes na época das chuvas. O cheiro da falta de condições sanitárias vai ficar comigo para o resto da vida. Assim como a luta de um povo por direitos básicos.
O Tijolinho Vermelho foi a maior lição que já tive na vida, a maior escola e o maior aprendizado.
Nunca vou esquecer das crianças brincando com meu filho, do cuidado e do carinho que alguns tinham com o "galeguinho".
Espero que meu filho também nunca esqueça essa experiência de vida e nunca naturalize tamanho descaso com o povo.
Aqui almocei com meus avós, pais, irmã, tios e primos na década de 1980.
Por ironia do destino, 30 anos depois, adentrei no antigo hotel Tropicana já como Ocupação do Tijolonho Vermelho.
Convivi com algumas famílias, brinquei com as crianças, formamos até uma turma de alfabetização de Jovens e Adultos.
Vi cenas impactantes na época das chuvas. O cheiro da falta de condições sanitárias vai ficar comigo para o resto da vida. Assim como a luta de um povo por direitos básicos.
O Tijolinho Vermelho foi a maior lição que já tive na vida, a maior escola e o maior aprendizado.
Nunca vou esquecer das crianças brincando com meu filho, do cuidado e do carinho que alguns tinham com o "galeguinho".
Espero que meu filho também nunca esqueça essa experiência de vida e nunca naturalize tamanho descaso com o povo.
Tijolinho Vermelho / Hotel Tropicana
Nesta cadeira aparentemente vazia
Muitas pessoas escreveram sua história
Elas nunca esperaram um milagre
Cansadas de ficar sentadas
Foram à luta
Sofreram com as chuvas
Sofreram sem uma ducha quente
Sem condições sanitárias
Esta cadeira vazia
Conta muitas histórias
De muitos meninos
e meninas
Que brincavam no Ponto Cem Réis
No Pavilhão do Chá
Na Praça dos Três Poderes
Podres Poderes
Que não querem dar dignidade às pessoas
famintas
Poderes de vestes sujas
Que nunca precisaram jogar suas fezes
Do alto do Hotel Tropicana
Pela simples falta de um vaso sanitário
Podres Poderes
Jogam suas excrementos na cara do povo
Para além da soberba do Tribunal de Justiça
Do Palácio do Governo
Ou da Assembleia Legislativa
Homens e mulheres teimam em escrever sua história
Nesta cadeira sentaram iletrados
Mais dignos do que àqueles sentados nas cadeiras imundas da Praça dos Três Poderes
Muitas pessoas escreveram sua história
Elas nunca esperaram um milagre
Cansadas de ficar sentadas
Foram à luta
Sofreram com as chuvas
Sofreram sem uma ducha quente
Sem condições sanitárias
Esta cadeira vazia
Conta muitas histórias
De muitos meninos
e meninas
Que brincavam no Ponto Cem Réis
No Pavilhão do Chá
Na Praça dos Três Poderes
Podres Poderes
Que não querem dar dignidade às pessoas
famintas
Poderes de vestes sujas
Que nunca precisaram jogar suas fezes
Do alto do Hotel Tropicana
Pela simples falta de um vaso sanitário
Podres Poderes
Jogam suas excrementos na cara do povo
Para além da soberba do Tribunal de Justiça
Do Palácio do Governo
Ou da Assembleia Legislativa
Homens e mulheres teimam em escrever sua história
Nesta cadeira sentaram iletrados
Mais dignos do que àqueles sentados nas cadeiras imundas da Praça dos Três Poderes
22.1.17
Patético
Uso desculpas esfarrapadas
O tempo todo
Nos meus deslizes
Nos meus equívocos
Até nos sonhos que invoco
As desculpas e meus farrapos
São traços
São desvios de conduta
São fugas
Para tentar apagar as minhas rugas
São meus escritos sem métrica
São frases sem pé nem cabeça
São desvios éticos
Uso desculpas esfarrapadas por tudo
Até por motivos patéticos
O tempo todo
Nos meus deslizes
Nos meus equívocos
Até nos sonhos que invoco
As desculpas e meus farrapos
São traços
São desvios de conduta
São fugas
Para tentar apagar as minhas rugas
São meus escritos sem métrica
São frases sem pé nem cabeça
São desvios éticos
Uso desculpas esfarrapadas por tudo
Até por motivos patéticos
16.1.17
Insônia literária
Meia noite. É preciso escrever.
Mudo o horário. Mudo o computador. Mudo a posição.
O texto continua mudo.
Lá fora cobradores rangem os dentes. São prazos implacáveis alvoroçando minha falta de inspiração.
Minha mãe inicia a sinfonia dos pires e talheres às cinco da manhã. Anuncia o café forte e o alarido diuturno.
São vozes que cercam e agonizam o teclado até o por do dia.
Procuro refúgios, Thomas Mann,
qualquer mágica que digite freneticamente todo o texto que está contido na cabeça.
São apenas velhos truques e desejos frenéticos. Parar tudo e ler um romance. Ou uma tragédia grega.
Outrora marco um mergulho no mar. Catatonia vespertina. Delírios corriqueiros na Praia de Coqueirinho.
Os trinta dias correram pelo ralo. A ampulheta do tempo está cheia de ar...
Na linha de chegada estão todos. Maridos, mulheres, filhos, minha mãe com o pires na mão, meu pai na torcida por qualquer resultado, o futuro e o carnaval. O verdugo de minha sorte sorri para mim.
Meio dia. O texto ainda me espera neste quarto quente e repleto de passado. Parece que todos me olham, esperam por mim. Os doutores, os sobrinhos, desconhecidos de Shanghai, quase toda a família. O mundo inteiro está aqui à espera das duzentas páginas inexistentes e retorquidas.
O texto sabe imolar o sujeito. Sacrifica inocentes. Refluxos e mais refluxos, arrependimentos, lembranças das rotas alteradas, caminhos de fuga.
O texto não espera poemas, não coaduna com correntes literárias, não aceita jocosidades.
Ao contrário, é burocrático, infame, prolixo.
Assassino de poetas primários lacônicos, o texto há de cumprir o seu ideal.
15.1.17
9.1.17
2.1.17
13.12.16
10.12.16
4.12.16
Seca
Oremos
Pela indústria da seca
em pleno século XXI
Pelo céu escarlate
Pela cachorra Baleia
que não chora nem late
Oremos
Como os gravetos secos
de olhos fundos
e chão ardente
Brindemos
com panos quentes
pela falta de tudo
com aguardente
Oremos
Por uma saída
Pela chuva rala
Pela intervenção divina
Oremos
Para que todos aqueles indignados
Com a seca alheia
Desçam de seus palanques
E venham sentir esse calor na veia
Pela indústria da seca
em pleno século XXI
Pelo céu escarlate
Pela cachorra Baleia
que não chora nem late
Oremos
Como os gravetos secos
de olhos fundos
e chão ardente
Brindemos
com panos quentes
pela falta de tudo
com aguardente
Oremos
Por uma saída
Pela chuva rala
Pela intervenção divina
Oremos
Para que todos aqueles indignados
Com a seca alheia
Desçam de seus palanques
E venham sentir esse calor na veia
1.11.16
30.10.16
Provocações
Para Juljan Palmeira
À sombra de uma palmeira
Não descansam mentes perigosas
Subversivos sonhos
Microfones voadores
amplificando quimeras laboriosas
Metralhadoras poéticas
Agitam sábados subversivos
Encontro marcado
com Cabras Marcados para viver
Microfones vão voar
Disparos cíclicos
Serão nosso dia D
Serão cabeças no tempo
Subvertendo os segundos
Amplificando a autonomia intelectual
Não queremos respostas,
apenas provocações para fumar
Numa noite quente de luar...
27.10.16
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