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24.1.16

Cabelos Brancos

Prefiro o som ardente dos gritos torturados
A esse silêncio profano da legalidade instituída

Prefiro a cadeira elétrica
o pau de arara
o verdugo encapuzado
À lerdeza infinita e deliberada do Tribunal de Justiça

Prefiro ser enterrado como suicida
A esperar pelo julgamento da minha causa

Prefiro as bombas em bancas de jornal
Do que esse imprensa comprada

Prefiro as barricadas, os molotovs
o manual do guerrilheiro urbano
a esses partidos de outubro

Mas, são tempos vindouros
que engoliram o tempo passado
É uma era do ouro
que se expande com crédito cidadão

O que estava expondo
agora camuflado
O que era violência
agora paz dos túmulos
O que era tortura
virou crise [ano que vem o país volta crescer]
O que era exploração
oportunidade
O que era rebelião
idiotice
O que era mínimo
salvação
Coisa do passado
anacronismo de cabelos brancos

E continuo escutando os Beatles numa vitrola de agulha
Datilografando poemas num máquina vermelha
Escovando os dentes com juá
E vou continuar me recusando a pintar os cabelos
mesmo que aqueles 21 anos ainda perdurem

Escaravelho

9.1.16

Feridas

Minhas feridas abertas
hoje demoram a cicatrizar

Antes fechavam em pouco tempo
gotas de mercúrio cromo e paciência

Mas não causam inveja às feridas internas
Centenárias, purulentas, viris e teimosas na cicatrização

3.11.15

Futebol

Fui dormir pensando na "voadora" que meu filho levou de uma outra criança.

Ernesto adora futebol, e mesmo numa pracinha, sem espaço para a prática futebolística, é inevitável improvisar travinhas e times. Sem conhecer ninguém, basta colocar sua surrada bola de vôlei de praia para correr praça a fora que começam a chegar os novos amigos interessados num joguinho de futebol com bolas e espaços inusitados.

Dois meninos se aproximaram, um pequeno demais para os cinco anos de Ernesto, outro grande demais. Com o pequenino ele brincou de ser o dono da bola, correr praça inteira e não perder o controle da brincadeira. Quando o menino mais velho entrou na roda foi com o sentimento do violento esporte bretão. Entradas maldosas, ar competitivo e jogadas agressivas, incompatíveis com a idade daqueles que só viam prazer naquela prática espontânea.

Eu deveria ter encerrado a brincadeira no primeiro round. Não o fiz, e as consequências foram a queda no chão duro, o arranhão e o choro.

É o futebol, desde a tenra idade, mostrando a rudeza das nossas relações sociais. 

25.10.15

Escrito denegrido

Hoje eu me sinto tão negro
Orgulho da cor, do nariz,
do tamanho do meu cabedal

Orgulho de compartilhar escritos
De me sentir Zumbi
na resistência à elite colonial branca

Hoje eu me sinto tão negro
Mesmo que a elite exponha suas propagandas arianas

Mesmo que digam que o meu é bom
Em detrimento a um cabelo que teimam adjetivar de ruim

Meus beiços, meus beijos
Meus sentimentos negros
Dos meus antepassados
Da minha bissavó que não foi capitã
de Areia

 

Para da Costa (ou Camarada Yuri)

Não para da Costa
Para costa antes do naufrágio
Tantos ratos neste porão
Tantos vazios nestas costas

Submersos nossos sentimentos
Não permitiremos que nos afoguem
Para a costa!

Homens e mulheres à vista
De longe em longe
Como em Terra dos Homens

Um diria veremos a costa
Límpida, fagueira e resplendente
Para isso é preciso repetir,
sempre e sempre:
Não para da Costa!

21.10.15

Professor Jó

Terça, três da madrugada. Acordo depois de um pesadelo. Uma sala de aula, alunos procurando intrigas e blasfêmias. Tentativas frequentes de estratégias para desestabilizar o professor. Conversas paralelas, caras e bocas. Tocaias para provocar o erro. Ar sarcástico, ironias, desamor.

Acordo ofegante e passo a escutar o alarme do relógio hora após hora, até as seis da manhã.

Começa o dia. Uma rotina que se prolonga por longos dezoito anos.

A última vivência, sempre taxo como a mais dolorosa experiência do magistério que enfrentei. Meus neurônios não suportam, fustigados pelo tempo.

Um equívoco qualquer é inevitável apesar das longas horas de preparação e leituras prévias.

O pesadelo era a antevisão, a aula a realidade.

Seres inacabados, de sentimentos inexplicáveis, transformam o déjà vu em tormenta concreta.

Próxima terça, enfrentarei um novo colisseu de leões sedentos que irão se revezar até dezembro - ou até eu parar de oferecer minha carne de Jó.